quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Autonomia, "classe média" e auto-abolição do proletariado

Continuação das reflexões do texto Ação direta VERSUS trabalho de base

Antes de tudo esclareçamos que a ideia de "fazer as pessoas lutarem" é não só presunçosa, mas completamente equivocada.

A existência dos proletários já é ação, já é luta, e eles já estão tão auto-organizados quanto está sob seu poder neste momento combater a classe dominante (composta por burguesia e burocracia, e seus órgãos de poder: Estado, empresas, sindicatos, ongs e partidos). Estamos em ação, em luta, independentemente de termos ou não consciência disso.

A todo momento, conforme o grau da capacidade de agir do proletariado,  ele, por si só, se vale de órgãos auxiliares (órgãos que ele cria ou, se a capacidade de agir é reduzida, órgãos pré-existentes, que são os da classe dominante - sindicatos, partidos, direito - que ele tenta utilizar a seu favor contra a própria classe dominante, que, por medo de uma explosão, pode ceder, como válvulas de alívio). Órgãos que são meios de aumentar sua capacidade prática. Orgãos cujas tarefas devem ser, para eles, específicas e explícitas (por exemplo, os conselhos de trabalhadores e soldados, os sovietes, tem a tarefa de coordenar a execução de tarefas entre bairros, cidades, países, continentes contra os órgãos da classe dominante que também coordenam sua ação contra nós nesses âmbitos) e que devem ser dissolvidos quando a tarefa é finalizada ou derrotada, para que não sejam mantidos como múmias cuja carniça, avidamente disputada por uruburocratas, só serve para alimentar estes inimigos.


No entanto, os proletários, por maior que seja sua autonomia, são contraditórios. Neles se encontram duas tendências em tensão: uma delas é sua afirmação como capital variável, ou seja, vendedores/compradores tanto quanto a classe dominante é vendedora/compradora (daí a aparência de existir apenas "classe média", infinitamente subdivisível desde alta alta alta até baixa baixa baixa, cada grau imaginando-se protegido pela polícia contra os graus inferiores), afirmação de sua posição de assalariados, mantenedores do status quo, do Estado e do capital. Mas como na realidade os proletários não possuem nenhuma mercadoria para vender a não ser a si mesmos (no mercado de trabalho), há a outra tendência, que é a sua afirmação como classe autônoma, como proletariado, a classe daqueles que não possuem mercadorias (que não tem nada a perder a não ser as correntes que o aprisionam) e cuja praxis é o comunismo (auto-abolição do proletariado, pela supressão da sociedade de classes e o Estado).

Por isso, a capacidade de agir dos proletários, sua autonomia, que eles sempre possuem em algum grau, é uma tensão, e toma contraditoriamente partido de duas direções: uma é reacionária e a outra é comunista. A única tendência cujos órgãos podem se tornar "duradouros" e de "longa duração" dentro da sociedade atual é a reacionária (daí a recuperação dos órgãos, como os sovietes, pela classe dominante, e a burocratização), pois sua permanência supõe a adequação à continuidade do proletariado como sustentáculo da sociedade de classes e do Estado (os proletários podem até mesmo afirmar radicalmente sua autonomia como capital variável, autogerindo sua própria exploração e repressão). A outra tendência, a comunista, só pode ter êxito quando numa dinâmica de rápida e crescente expansão, ultrapassando subitamente as fronteiras nacionais e divisões identitárias, estabelecendo desde o princípio o modo de produção comunista, o livre acesso aos meios de produção e de vida. E isto só pode ter êxito se toma os fluxos e estoques do circuito produtivo mundial, abolindo a economia ("ordem emergente" do mercado, que reflete não as necessidades humanas mas o poder de compra e o lucro), para submetê-los às necessidades humanas, ao poder dos indivíduos livremente associados que abolem as classes e o Estado.

Portanto, quando afirmamos a teoria comunista, não é que queiramos levar seja quem for à luta, mas sim afirmar a tendência comunista das lutas que todos os proletários do mundo já estão fazendo pelo simples fato de existirem. A expressão da teoria é espontânea, porque não parte de outro ponto de vista senão da condição problemática, contraditória, que constitui o proletariado em todo o mundo, sendo que nós mesmos, que nos dedicamos à essa teoria, sofremos a contradição como todos os demais proletários em nossa prática cotidiana. Quando a expressamos, sabemos que não somos "mais" do que ninguém, até porque somos plenamente conscientes de que ela jamais vai encontrar ressonância e ampla difusão, e permanecerá parecendo um  delicioso delírio megalomaníaco (delícia que é uma das razões pela qual nos dedicamos a ela),  enquanto os proletários, em sua prática, continuarem sendo forçados predominantemente ao lado reacionário (o de serem capital variável, "classe média") de sua luta. Se o lado comunista predominar, a difusão vai se fazer sem a necessidade de nenhum "trabalho de formiguinha" ("trabalho de base"), porque ela será apropriada espontaneamente, grandemente desenvolvida e difundida por cada proletário empenhado em abolir a venda de si mesmo e que busca entender sua situação para poder agir de forma mais poderosa.

Humanaesfera, agosto de 2015

Bibliografia:
Crise e Autogestão (Négation, 1973)
Capitalismo e comunismo (Jean Barrot/Gilles Dauvé, 1972)
O «renegado» Kautsky e seu discípulo Lênin  (Jean Barrot, 1969)
Leninismo e Ultra-esquerda (Jean barrot & François Martin, 1972)
Composição de classe (Zerowork, 1975)
Notas sobre Composição de Classe (Kolinko, 2001)
A Impotência do Grupo Revolucionário (Sam Moss, 193?)
Sobre Organização: As Gangues (dentro e fora do Estado) e o Estado como Gangue (Jacques Camatte & Gianni Collu, 1969)
Origem e função da forma partido (Programma Comunista, 1961)
A revolução não é tarefa de partido (Otto Ruhle, 1920)

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