sábado, 18 de junho de 2016

O corpo é uma propriedade privada?


O corpo é uma propriedade, mas apenas se alguém é privado dessa propriedade faz sentido dizer que ele se torna uma propriedade privada. A privação do corpo é a coerção de ter que comprar o corpo, o que só seria possível se outro o priva para aliená-lo, vendê-lo.  Então, somente se os corpos forem alienados, apenas se forem objetos de compra e venda, os corpos são propriedades privadas. E como o corpo inclui o cérebro, a capacidade de pensar e de decidir, a venda do corpo significa também a venda da fonte da capacidade de pensar e de decidir. Consequentemente, uma vez que o corpo se torna propriedade privada, ele é incapaz de se vender, mas é vendido por outro corpo que pensa e decide: trata-se da relação entre senhor e escravo.


O capitalismo (o comercial, pré-industrial) durante séculos se baseou na escravidão para acumular capital. Porém, dado que comprar e manter um patrimônio de escravos era caríssimo e, tal como hoje a propriedade de animais, acarretava custos com alimentação, saúde, procriação, moradia etc, ter escravos se revelou cada vez menos lucrativo e menos competitivo no mercado mundial. Nesse momento, lucrativo não é mais ter a propriedade de alguém, mas usar esse alguém para descartá-lo sem custos no mesmo instante em que esse alguém não se revelar mais lucrativo, por exemplo, se ficar doente, cansado, entediado, rebelde etc.

Então, o capitalismo se transformou, e deixou de se basear na venda/compra do corpo (e, com ele, da mente) para se basear na alienação das capacidades práticas do corpo e da mente (compra/venda de força de trabalho em troca do salário), que assim são prontamente usadas, gastas para serem instantaneamente descartadas no olho da rua quando se mostrarem "improdutivas": trata-se do trabalho assalariado, em que se baseia o capitalismo industrial, que dominou o mundo, e inclui hoje os "serviços", pois estes já são baseados no trabalho assalariado e não mais na servidão (daí "serviços") da criadagem.

Enquanto anteriormente o que era objeto de compra e venda se limitava a coisas prontas e corpos nascidos, agora se torna  objeto de compra e venda algo muito mais fundamental: a própria energia potencial global da sociedade que cria e transforma coisas e corpos, a própria capacidade de transformar o mundo e os seres humanos. Essa energia social potencial  global só é alienável, vendável, se seus "proprietários" forem privados de suas condições de atuar e existir autonomamente, isto é, enquanto essas condições (os meios de vida e de produção) são propriedade privada. E então, impotentes como indivíduos, eles só podem  atuar e existir se venderem e alienarem suas próprias capacidades em troca de dinheiro. O dinheiro, desse modo, se torna equivalente a essa energia potencial prática global da sociedade; e quanto mais dinheiro alguém possuir, mais poder ele tem sobre os outros, e mais dinheiro pode obter ao pô-los para trabalhar, para que transformem o mundo num mundo que lhes é cada vez mais privado, alienado, estranho, desumano, policiado, murado, cercado, violento, brutal e indiferente...

Humanaesfera, junho de 2016

Veja também os textos: 
Propriedade privada, substância do Estado

Propriedade privada, escassez e democracia

Contra a metafísica da escassez, copiosidade prática




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