quinta-feira, 15 de março de 2012

"Classe média": moralismo paranóico repressivo masoquista


É na praxis que criamos aquilo em que nossos sentidos, habilidades, pensamentos, potencialidades e desejos são descobertos e desfrutados.

Em outras palavras: é ao transformarmos nossas condições materiais de existência que criamos e encontramos a nós mesmos e nossas relações com os outros - nossas potencialidades/desejos e nossas associações.

Porém, quando nossas condições de existência nos são privadas (isto é, são propriedade privada), somos forçados, para existir, a transformar essas condições como algo separado, alienado, - o capital. A praxis se torna um esforço anódino e abstrato (trabalho assalariado), que se submete ao fim sem fim do capital, que é o de se acumular indefinidamente como um poder hostil.

Separados de nossas condições materiais de existência (tornadas capital), produzimos e encontramos os nossos sentidos, habilidades, pensamentos, potencialidades e desejos de modo que adquirem a aparência de serem algo também separado, algo puramente imaterial, incondicionado, dado. A matéria que nós somos (desejos, pensamentos, sensações etc) e a matéria a nossa volta (inclusive as outras pessoas) parecem desvincularem-se, enquanto são reunidos, pelas costas, pelo capital.

Privados desse modo da possibilidade material de compreendermos a nós mesmos como praxis (isto é, nossa individualidade como a confluência ativa de nossas condições de existência), tendemos a atribuir aos indivíduos uma incondicionalidade que tende a levar à paranóia, ao rancor, à competição, ao autoritarismo e à busca de "culpados" para tudo, sem falar do conspiracionismo.

Essa mentalidade reacionária predomina durante a perpetuação do capital, pois é inerente à alienação da população de suas condições materiais, ou seja, inerente à perpetuação do proletariado inerte, que se reconhece apenas como "classe média", um conjunto de compradores e vendedores, pseudo-proprietários que se creem protegidos pelo Estado.

O desejo desvinculado de suas condições materiais, incapaz de produzir seu próprio mundo material e social, investe passivamente a libido em qualquer coisa apresentada pelo capital: a pátria, a família, os objetos de consumo, o salário, o time de futebol, o posto de chefia, o automóvel, a "raça", o "empreendedorismo", a tropa de elite, o exército. É a maneira da "classe média" acreditar-se tão proprietária quanto os capitalistas e também a maneira de distinguirem-se como "superiores" ao extrangeiro, minorias e aos que ganham um salário menor ou que estão na miséria absoluta.

Tudo isso leva a classe média a tender a manifestar seu desejo ativamente apenas como um ódio patológico crônico, um ódio que está sempre em busca de algo para se justificar (moralismo). Uma perturbação qualquer e lá estão eles excretando sua libido sado-masoquista defendendo a tortura, a pena de morte, as câmaras de gás, a demissão do companheiro de trabalho e a expulsão do vizinho que não pagou a prestação da casa. São adeptos ferrenhos da doutrina do livre-arbítrio, a doutrina da culpabilização absoluta dos que eles supõem ter a alma incondicionalmente "má".

A classe média tende a achar que por trás das aparências todos são uns "filhos da puta", bestas feras cujas inter-relações sempre descambarão para o assassinato mútuo, o estupro e o canibalismo se não houver um policial controlando cada ponto do planeta onde uma pessoa encontra outra. A classe média, imaginando que todos são apriori monstros, acha que o melhor a fazer é sempre pisar nos outros e ficar "por cima". Tudo isso em nome da defesa da imaculada família, da proteção da sua suposta propriedade privada mais preciosa, os filhos, contra o mundo cão, razão pela qual idolatram a repressão do estado ou defendem qualquer bando que imponha o terror em nome de alguma suposta "ordem".

A dita classe média parece mais capitalista do que os capitalistas, mais repressora do que o Estado, mais obediente do que o mando do chefe, mais adepta da coerção da concorrência do que o próprio mercado. Mas todo esse exagero doentio não passa de uma compensação imaginária do fato de que seus "integrantes" não possuem nenhum meio de produção, nenhuma propriedade privada, nenhum capital, mas apenas propriedades fictícias: automóvel que depois de pouco tempo não vale mais nada, emprego que logo será perdido, casa que se desgasta a cada dia, objetos de consumo totalmente indesejáveis após sair de moda, filhos que crescem e levam sua própria vida, isso sem falar das ficções no sentido literal da palavra, como a pátria. Na ausência da perspectiva revolucionária de retomar as condições de existêcia numa revolução social mundial, não lhes resta perspectiva senão se agarrar a essas ficções patológicas para manter viva sua libido e não se matar.

Como podemos responder a isso? Evidentemente que a psicoterapia que defendemos consiste em investir o desejo na produção das próprias condições de existência, isto é, a afirmação prática e material de nossos desejos em livre associação com outros, o que implica a supressão da propriedade privada dos meios de produção (abolição do capital, do dinheiro, do Estado, etc.) pela comunidade dos indivíduos livremente associados a nível mundial.

Infelizmente, é preciso reconhecer, essa nossa proposta psicoterápica parece ela mesma também um desejo desvinculado de suas condições materiais, portanto fictícia, já que essa retomada das condições de existência não ocorreu até agora. Mas esta nossa contradição talvez expresse a contradição das próprias condições de existência que o capital produziu e tendem a ultrapassá-lo - essas condições confluem na nossa individualidade comunista e nos permite defender o que defendemos como algo pelo que vale a pena viver e lutar.

humanaesfera, março de 2012