segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A Ideologia do status quo

condições de existência coisificadas
A ideologia predominante em nossa sociedade, o "senso comum" (a ideologia do status quo), considera como naturais e neutras as condições de existência, as supõe como uma coisa, um dado coisificado, cujo pensamento ou entendimento é inútil porque as condições são supostas fora da intervenção humana, como algo imutável e incondicionado. Assim, o fato de sermos forçados a vender como uma mercadoria as nossas capacidades de nos manifestamos no mundo, o fato de termos que vender nossa própria potência vital, isto é, o fato de nos vendermos no mercado de trabalho, de sermos forçados a nos exprimir materialmente apenas se formos um objeto sob o ditame do capital, é considerado um fato natural, dado e imutável.

liberdade zumbi e vida morta
A única liberdade concebível pela ideologia do status quo é, por isso, a liberdade que vacila entre dados predeterminados, já que essa é a única liberdade que sempre encontra suas condições como algo dado e imutável. Assim, a máxima liberdade concebível no status quo é a liberdade de livre escolha ou livre arbítrio: a escolha entre dados pré-existentes, escolha entre mercadorias (objetos predefinidos pelo capital), escolha entre o "bem" e o "mal" (conceitos predefinidos por supostas autoridades sobrenaturais ou divinas), escolha entre candidatos numa eleição (pré-escolhidos pela "política")...

A liberdade no senso comum é, desse modo, uma estranha liberdade passiva, consequência do fato de que, em nossa dimensão ativa, a dimensão em que nos manifestamos materialmente no mundo, em que produzimos nossas condições de existência, não somos livres, mas sim uma mercadoria, a força de trabalho, um objeto de consumo do capital.

o rebanho da justa medida
Além disso, há uma dimensão pseudo-prática na ideologia do status quo. Trata-se da ideologia da média, que afirma que o justo meio entre supostos extremos é sempre o ideal: "o melhor é nem ser muito gastador nem muito avarento", "o melhor é nem ser muito religioso e nem muito pecador", "o melhor é nem ser muito extremista e nem muito frouxo" e assim por diante. O vazio flagrante desses "conselhos práticos" repousa no fato de que eles não propõem nenhuma prática, nenhuma transformação, mas apenas um posicionamento passivo num quadro predeterminado de opostos, que na realidade são sempre dois lados da mesma moeda. E, pior ainda, como a "justa medida" é totalmente indeterminada e vazia em termos práticos, o único critério para decidir o que é médio é seguir a média, a mediocridade, o rebanho, a massa amorfa e obediente, em suma, é "fazer o que todo mundo faz".


praxis comunista
Contra a prática zumbi e liberdade escrava do status quo, defendemos a liberdade que abrange suas próprias condições, a liberdade prática e material, isto é, a libertação de nossas condições de existência (os meios de produção e a natureza) das garras do capital, abolindo a propriedade privada para estabelecer uma livre associação de indivíduos que se unem ou desunem conformem seus desejos e necessidades produzidas ao produzirem livremente suas condições de existência.

Humana Esfera, 11/2011

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quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O futuro ainda está nas mãos dos proles!

O mercado mundial, desde o século XVIII, liberta de fato a humanidade das relações de sujeição pessoal (senhores/escravos, mestres/servos,  relações de vassalagem etc.),  que eram baseadas na suposta origem divina, ancestral ou hereditária das pessoas.

Antes, as castas, a servidão, a escravidão, as guerras entre tribos, eram mantidas imaginando-se que tivessem origem divina ou cósmica, e do mesmo modo, determinados povos e pessoas eram tratados como destinados à sujeição por motivos míticos, religiosos, hereditários, ou eram supostos serem naturalmente inimigos por ancestralidade (como entre os indígenas sul-americanos).

O mercado mundial emancipa a humanidade desse seu passado horrendo. Isso porque, na troca de mercadorias, não interessa para as partes a origem das pessoas que vendem e compram, o que interessa é o valor da mercadoria que elas negociam. Logo, as relações entre vendedores e compradores minam e destroem as relações de desigualdade e sujeição pessoal que caracterizavam a humanidade em seu passado e as substitui por relações de liberdade e igualdade.

Nossa sociedade, isto é, o mercado mundial, nos faz de fato livres e iguais, mas, evidentemente, não como nós mesmos, não como indivíduos, mas apenas como vendedores e compradores livres e iguais de mercadorias. Se não vendermos nenhuma mercadoria, não conseguiremos dinheiro e, sem dinheiro, não conseguiremos acesso ao que nos permite sobreviver.

Tudo isso parece muito natural. Mas acontece que a quase totalidade da população mundial (e de todos os países) não tem nenhuma mercadoria, nenhuma coisa para oferecer. Eles são os proletários. Sem nenhum objeto para vender e trocar por dinheiro para sobreviver, só lhes resta vender a única coisa que ainda possuem, ou seja, a disposição de seu corpo, com seus atos e pensamentos, para fazer o que o comprador determinar, quer dizer, transformar em uma coisa vendável as suas capacidades humanas, sua potência de pensar e agir no mundo, sua força de trabalho. Em troca, receberão dinheiro - salário -, que, em tese, lhes permitirá sobreviver.

Trocadas por salário, as capacidades humanas compradas são um objeto de consumo ímpar, um objeto que tem a poderosa capacidade de, ao ser consumido, transformar criativamente a natureza. Desse modo, a força de trabalho é uma mercadoria cujo consumo, cujo gasto, dá ao seu comprador a própria potência criativa humana, a própria capacidade humana de mudar o mundo, o mundo em que vivemos, a natureza, em todos os aspectos.

Assim, as capacidades humanas tornam-se uma coisa, e só podem ser exercidas quando alienadas, vendidas, ou seja, apenas quando trocadas por uma dada soma de dinheiro. O dinheiro se torna equivalente à potência humana, enquanto os seres humanos se tornam impotentes como simples seres humanos, impotentes como indivíduos. Portanto, aqueles que mais tiverem dinheiro mais terão sob seu ditame a potência criativa da população, e poderão consumi-la, pô-la para trabalhar, para gerar ainda mais dinheiro, lucro, num círculo de acumulação constante e sem limite. Surge assim o capital - uma relação social que  impulsiona a si mesma a se reproduzir numa expansão sem limites, como se fosse um fato natural, involuntário, coisal, para os indivíduos envolvidos, pois estes pensam estarem apenas se relacionando entre si como pessoas livres e iguais que trocam as coisas entre si. Historicamente, o ponto de partida da expansão foi a Inglaterra do séc. XVIII, e a partir de então, parecendo uma catástrofe natural inevitável, o vírus da ditadura do dinheiro se replicou por toda parte e já na metade do séc. XIX abrangia o mundo inteiro. Eis a gênese do mercado mundial.

Com isso, as relações de sujeição pessoal foram substituídas por relações de sujeição coisal (e até mesmo de um ponto de vista puramente mercantil, com a expansão do mercado mundial, o uso de mão de obra de escravos logo revelou-se incapaz de concorrer frente ao uso de mão de obra proletária, pois o escravo é uma mercadoria cara, cuja propriedade demanda muitos cuidados  e custos que não são necessários quando se emprega proletários, que, se doentes e incapacitados de trabalhar, podem ser demitidos, ao contrário do escravo, que é um patrimônio do senhor e cujo descarte acarretaria grandes prejuízos para ele. Então, em termos de mercado, a compra de força de trabalho, o comércio de capacidades humanas, é incomparavelmente mais lucrativo do que a compra de escravos.)

Para a vida dos proletários, a acumulação do capital é a transformação da natureza por eles mesmos (por seu trabalho) em um mundo cada vez mais alienado deles, um mundo que acumula cada vez mais cercas, muros, um espaço cada vez mais intrincadamente privativo, policiado, isto é, que priva cada vez mais a população de liberdade, fazendo ser cada vez mais obrigatório ter dinheiro para satisfazer o menor desejo humano. É certo que, se fosse possível (felizmente ainda não é), o capital buscaria cercar o próprio ar que respiramos para que tenhamos de trabalhar para ele e pagar pela nossa simples respiração.

Sendo o capital a propriedade privada das condições de existência da população contra a própria população, de modo a fazê-la pagar por existir, o capital precisa de uma imponente instituição repressiva. Trata-se do Estado.

O Estado representa, reconhece, garante e protege a liberdade e a igualdade dos cidadãos, mas, evidentemente, não enquanto eles são simples seres humanos, mas como vendedores e compradores de mercadorias (e isso não muda se o Estado é denominado democrático ou ditatorial, fascista ou socialista). Daí que, para o Estado, há apenas "classes médias".

Foi apenas na década de 1920, sob a ameaça contundente de lutas proletárias internacionalistas (em todos os países industrializados: greves gerais, insurreições de trabalhadores etc.), isto é, sob a ameaça das lutas da própria potência humana mundial contra o capital, que, em cada país, o Estado viu-se forçado, nos anos 1930 aos 1950, a reconhecer os trabalhadores (e os despossuídos em geral) como categoria com direitos próprios, por meio de leis trabalhistas e sistemas de bem estar social (por exemplo, a previdência social, programas alimentares, de saúde universal, educação pública etc.). Naquele momento, conceder esses direitos em todos os países industrializados foi o único meio de acalmar a luta e salvar o capital, que é a razão do Estado. E essa estratégia funcionou. Mas como?

Funcionou porque o proletariado é um ser ambíguo: os proletários são (a) vendedores de uma mercadoria (força de trabalho), tanto como os capitalistas (empresas) vendem mercadorias, e, ao mesmo tempo, (b) eles são a própria potência humana criativa mundial, que o capital, que é a propriedade privada das condições de atuação dessa potência, volta contra os próprios seres humanos como uma força hostil e opressiva que se acumula indefinidamente.

Portanto, a luta dos proletários ocorre sempre na tensão dessa ambiguidade:

a) enquanto vendedores de uma mercadoria determinada - a força de trabalho -, os proletários têm interesse em vender (isto é, conseguir emprego) e valorizar sua mercadoria (isto é, aumentar seu salário e reduzir a carga de trabalho), quer dizer, reduzir proporcionalmente os lucros do capital, que, inversamente, por definição busca aumentar seus lucros, valorizar-se com menos custos. Os trabalhadores, enquanto vendedores concorrentes de força de trabalho, estão sempre em desvantagem frente ao capital, mas a medida que eles percebem que a força de trabalho é a mercadoria por excelência - a mercadoria que gera todas as demais mercadorias -, e à medida que se esforçam por reduzir a concorrência entre si, associando-se e lutando, eles conseguem valorizar sua mercadoria. Mas, como meros vendedores, essa valorização não deve ultrapassar o limite que levaria o comprador, o capital que os paga, à falência ao não ter mais lucros, já que isso tornaria os proletários impossibilitados de vender força de trabalho. Assim eles perpetuam-se como proletários ao afirmarem-se como mercadores, como vendedores de uma mercadoria e compradores/consumidores de outras, como "classe média".

b) enquanto expressão em escala planetária da própria capacidade criativa humana, como potência de pensar e agir internacional, potência de transformar o mundo, os proletários lutam por libertar sua potência humana da sujeição de ter de ser vendida e de ter de exercê-la contra si próprios. Ou seja, lutam por suprimir o capital, a propriedade privada, com o fito de tornar gratuitas as condições da existência humana (suprimindo o totalitarismo do dinheiro, da mercadoria). Buscam pôr livres as condições de atuação de nossas capacidades criativas, para que todos, como indivíduos, como simples seres humanos, possamos nos associar livremente enquanto tais e assim produzir o que nossos desejos, necessidades e sonhos precisam. Neste caso, o proletariado não busca se perpetuar, ele busca se auto-abolir (ao abolir o capital e seu aparato repressivo, o Estado), afirmando-se como uma associação de indivíduos que se relacionam livremente sem fronteiras por todo o planeta.

No funcionamento "normal" de nossa sociedade, o lado dominante da ambiguidade proletária é o de serem mercadores livres e iguais; se tal lado não predominasse, essa sociedade não se sustentaria. Mas, como vimos desde o início, essa igualdade e liberdade de vendedores e compradores é solapada desde o princípio, e o capital busca sempre consumir a mercadoria força de trabalho ao máximo, explorando o proletário até o limite, e se este não se associar e lutar de algum modo, verá seu salário diminuir (p.ex., inflação) e a carga de trabalho aumentar (por ex., concorrendo entre si para ser o mais puxa-saco). A luta só pode ocorrer, portanto, fora da pura relação mercantil de concorrentes, e é na luta que os proletários vão, pouco a pouco, descobrindo que eles mesmos são a força por trás do capital e que, portanto, o capital depende deles, enquanto que, como potência humana, eles não dependem do capital. A organização da luta proletária é invariável: assembléias horizontais e conselhos, cujos representantes são eleitos e revogáveis a qualquer momento nas assembléias de todos os proletários em luta.

Mas tudo depende da correlação de forças. O capital tem a seu lado todas as polícias, todos os exércitos, todas as prisões, todos os tanques, mísseis e porta-aviões, em suma, o capital tem a seu lado todos os Estados da terra; pois o Estado nada mais é do que a propriedade privada armada (não só a propriedade privativa particular como inclusive mesmo a propriedade privativa do próprio Estado, como as empresas estatais), e ele edifica-se e enche-se de políticos e legisladores graças ao financiamento do capital (o Estado deve garantir a infra-estrutura urbana, de transportes, educacional, policial e militar que condiciona a ótima acumulação do capital num território), isto sem falar dos casos em que o próprio Estado incorpora o capital e torna-se ele próprio uma empresa colossal, uma mega propriedade privada do tamanho de um país, como na URSS e Cuba.

Assim, a correlação de forças é esmagadoramente desfavorável para os proletários. Mas há alguma situação em que ela pode ser favorável? Por incrível que pareça, sim, já que o funcionamento do Estado e de seu aparato repressivo também depende de seres humanos que são assalariados, proletários. Nas primeiras décadas do século XX, soldados e marinheiros volta e meia se juntavam à população em luta e davam-lhe armamentos cantando com ela a famosa canção internacionalista que diz:

"Paz entre nós guerra aos senhores
Façamos greve de soldados
Somos irmãos trabalhadores.
Se a corja vil cheia de galas
Nos quer à força canibais
Logo verá que nossas balas
São para os nossos generais."

Todos os direitos democráticos fundamentais que ainda temos hoje (direito de voto universal, educação pública, saúde universal, programas sociais, leis trabalhistas) devemos à luta internacional dos proletários do fim do século XIX e das duas primeiras décadas do século XX, que conseguiram, em diversos momentos, fazer a correlação de forças tornar-se favorável para eles, a ponto de fazer o capital e o Estado perigarem tão intensamente que tiveram de fazer concessões antes consideradas inimagináveis. O Estado, que, por essência é uma tirania implacável sobre a população, isto é, polícia e forças armadas, em suma, defesa sanguinária da propriedade privada, teve que se enfeitar com aparências cada vez mais "democráticas" e "sociais" para manter o capital (seja sob a forma "socialista" ou "particular").


Mas a história não acaba aí. Não nos enganemos com o papo furado das "classes médias". Hoje numa escala muito maior do que no passado, a privação das condições de existência dos seres humanos para eles mesmos continua forçando-os, sob a ameaça de não ter como sobreviver, a ter que vender as capacidades criativas humanas como uma coisa e exercê-las transformando o mundo contra si mesmos. A luta por retomarmos nossas condições de existência, a luta por efetuarmos nossas capacidades como nós mesmos, como indivíduos livres em associação através do mundo, ou seja, a luta pelo fim da propriedade privada (pelo fim do capital e do Estado), continua o projeto social mínimo chamado anarquia, comunismo, livre associação dos produtores. Se ainda podemos imaginar que o mundo tem futuro, o futuro ainda está na mão dos proles!

Humana Esfera, 8/2011



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sábado, 20 de agosto de 2011

O engatilhamento das inércias está na raiz da força?

Anteriormente, no texto Conceito qualitativo de energia, força e inércia, vimos que a interação entre inércias é que determina o que chamamos de força e que o conceito de energia é simplesmente uma estimativa da capacidade de exibir força de um conjunto de inércias numa duração de tempo, isto é, da capacidade das inércias passarem a interagirem entre si a partir de algum instante até outro instante.

Assim, uma bateria elétrica, quando está com seus dois terminais abertos (chave desligada), está impedida de exibir força, ou seja, impedida de iniciar a interação de suas duas inércias químicas internas (íons e cátions, cargas negativas e positivas, perseveram enquanto tais, logo, possuem inércia), mas quando os terminais forem curto-circuitados, as duas inércias se cruzam, interagem, exibindo força e alterando suas inércias reciprocamente, e interagem também com a inércia do metal condutor que causou o curto-circuito, alterando-a, fazendo o metal se aquecer e, talvez até explodir, alterando a seguir as inércias mecânicas de outras coisas em volta da bateria em curto que foram atingida pela explosão.

Mas percebemos que nem todas as inércias interagem indiscriminadamente entre si. Por exemplo, se empurrarmos uma bateria, alteraremos sua inércia mecânica (no vácuo, ela perseverar-se-ia nesse movimento indefinidamente), mas não alteraremos as inércias elétricas que a bateria contém. Parece então que a bateria possui dois "planos" de inércia, o plano das inércias químicas e o plano das inércias mecânicas, que só passam a interagir em situações muito específicas - quando a inércia mecânica de um metal condutor ( ou seja, que também apresenta a inércia química de se perseverar como um metal) leva o próprio metal ao encontro dos terminais da bateria.

Isso nos leva de volta ao caso da mosca que destrói um carro que falamos há quase um ano, no texto Uma arkhé Acidental?. A interação discriminada (isto é, não indiscriminada) entre inércias de planos diferentes parece explicar o "efeito gatilho" ou "efeito fagulha", isto é, a existência de causas que acarretam efeitos desproporcionais, quer dizer, uma causa de pouca força gerar um efeito de grande força na mesma duração de tempo (logo, energia maior), como na explosão da bateria no exemplo anterior que, para ser causada, bastou encostar um metal nos terminais. Não-linearidade causal.

Mas, para que o "efeito gatilho" ocorra, os planos de inércias não precisam ser diferentes entre si (como no exemplo dos planos químico e mecânico). Por exemplo, no próprio plano das inércias mecânicas, o "trombamento" delas (a oportunidade de exibir força) sempre é não-linear, já que duas inércias mecânicas podem trombar ou não, interagir ou não:  uma inércia pode passar "raspando sem encostar" em outra inércia e essa mera diferença espacial "de uma raspinha infinitesimal" impede o choque de acontecer. Perceba: Um infinitésimo de milímetros de distância. É  desproporcional a energia necessária para uma infinitesimal inércia-gatilho tangente poder deslocar uma inércia "só uma raspinha infinitesimal pro lado", ajeitando-a para ir de encontro com outra inércia, em comparação com a energia do choque resultante. E a "raspinha", esse infinitesimal, pode ser também no tempo: um infinitésimo de segundos de atraso determina um choque ou não. Parece que num mesmo plano de inércias, há vários planos internos, angulados, parelos, tangentes, etc, mas o plano máximo dos gatilhos são tangentes. Na realidade, onde quer que passe a haver interação entre inércias em seja qual plano for (mecânico, químico, gravitacional...), a interação, que é a força, ocorre graças ao "efeito gatilho", como não-linearidade. 

E os próprios planos mecânico, químico, gravitacional, etc., formam certamente um mesmo plano universal de inércias, pois só poderiam ser planos independentes se não pudessem  interagir entre si, e consequentemente nem mesmo interagir  com nossos sentidos, o que acarretaria que nunca saberíamos a existência deles, o que seria absurdo, já que só sabemos deles porque sabemos que eles interagem com nossos sentidos.

Talvez a não-linearidade que condiciona toda oportunidade de ocorrência de força seja uma "disposição intrínseca"  do próprio espaço e do tempo, do mesmo modo como a inércia é uma "disposição intrínseca" de perseverar das coisas.


Conclusão: talvez gatilho e inércia sejam os dois fundamentos de tudo o que existe. É o engatilhamento das inércias por si mesmas que produz força, energia e, consequentemente, tudo o mais que existe no universo. O esquema básico, mínimo, para um evento no universo, portanto, envolve, ao menos, três inércias: uma inércia é o gatilho (idealmente tangente) que permite ou impede que outras duas inércias, de proporções totalmente diferentes do gatilho,  venham interagir entre si e exibir força e energia.

Parece que temos agora elementos mais básicos para pensar o que seria a determinação do acaso ou o acaso da determinação, ou acaso necessário.  E talvez eles expliquem o que chamamos de "causalidade" ou "determinação", que é, aliás, o próprio campo sobre o que se aplica o pensamento, já que só pensamos quando buscamos apreender a maneira específica na qual os eventos, coisas, etc. se relacionam e surgem. Um pensamento que não busca a determinação daquilo que pensa pode ser tudo menos um pensamento.

Humana Esfera, 8/2011

    terça-feira, 16 de agosto de 2011

    Algumas implicações epistemológicas e éticas do materialismo

    Axioma básico do materialismo: A matéria é irredutivel à mente.

    Um materialista consequente sabe que suas idéias nunca são correlatos da realidade, pelo contrário, sabendo que seu pensamento é uma matéria, ele sabe que só pode ver o mundo a partir de sua determinação material no universo de matérias, e nunca de um ponto de vista "extraterreno" (como no caso da idéia do demônio de Laplace, como também no caso do racionalismo e dualismo). Se chega a saber, por exemplo, que a terra gira em torno do sol,  ele sabe também que conhece isso porque suas determinações materiais (no caso, novos instrumentos, clima cultural da época...) o capacitam a alcançar esse saber, e não como uma realidade dada "em si" para a mente pensando com seus botões. Todo saber é produzido, materialmente produzido. O saber nunca é um reflexo, nunca é espelho da realidade. O saber é inseparável da praxis.

    Com isso, um materialismo coerente afirma necessariamente que toda posição é fundamentada e verdadeira, na medida em que não existe nada que não seja resultado de determinações. Assim, quaquer idéia, mesmo a idéia de "fantasma" ou de "mula sem cabeça", nunca é resultado de uma mente decidindo livremente escolher o "erro" frente ao "acerto", como ocorreria caso o "livre arbítrio" existisse.

    Em outras palavras: quem afirma qualquer coisa sobre a realidade, por mais absurda ou quimérica que nos pareça essa afirmação, nunca afirma isso por livre arbítrio, mas como um resultado da matéria que essa pessoa é. Consequentemente, se um materialista encontra essa pessoa, esse materialista seria incoerente se ele trata ela como se ela tivesse livre arbítrio, isto é, como se pudesse escolher deliberadamente errar ao invés de acertar, como pareceria para racionalistas/dualistas/religiosos. Ao invés, o materialista, a priori, entende que a pessoa pensa de certo modo porque ela tem razões subjetivas suficientes para pensar assim e, mais ainda, que essas razões não são independentes de razões objetivas suficientes (mesmo inconscientes, pois, se somos matéria, somos também corpo, ação, sensações, desejos e não só consciência) para pensar assim.

    Esse materialismo implica toda uma peculiar prática do conhecimento e debate; o materialista informa seu saber para outros mostrando que ele é materialmente produzido por ele, ao invés de informar a outros seu conhecimento como se fosse um correlato na mente de uma realidade em si dada ao livre arbítrio para livre escolha. Desse modo, ele convida os outros a também produzirem materialmente seus conhecimentos em conjunto, e, nesse encontro, comunicam suas determinações reciprocamente, que podem produzir em ambos razões subjetivas e objetivas suficientes (inclusive inconscientes)  para assumirem outra posição, ou não assumirem, se as razões forem insuficientes.

    A matéria é irredutível à mente. As experiências formam nossas posições e idéias perante a vida. E enquanto nossa mente, sempre limitada, jamais vai abranger com suas idéias a malha infinita de forças materiais que nos determina a sermos o que somos, menos ainda uma pessoa poderá abranger com suas idéias a experiência material que formou as posições e idéias de outras pessoas perante a vida. O materialismo, se for coerente, é humilde e compreensivo.

    humanaesfera, 07/2011

    Conceito qualitativo de energia, força e inércia

    Definições:

    - Inércia é aquilo que faz uma coisa qualquer perseverar em sua velocidade, direção, formato etc.

    - Força é aquilo que altera a inércia (muda velocidade, direção, formato de alguma coisa).

    - Energia é a capacidade de uma força para alterar a inércia.

    Dadas essas definições, e tendo em vista construir uma concepção filosófica/física imanente (i.e. que não recorre a algo fora da física, fora da matéria), fica claro que a inércia é que é "substancial", pois é perseverando em sua velocidade, direção, formato etc. que as coisas são levadas a se cruzarem acidentalmente no espaço e tempo, quando então, nesse cruzamento, as coisas alteram reciprocamente sua velocidade, direção, formato, etc., manifestando assim o que chamamos de força. A inércia é a "causa substancial", enquanto a força é um "efeito acidental".

    Enquanto a inércia é o que faz as coisas perseverarem (em sua velocidade, direção, formato etc.), a energia é a capacidade das coisas (que se perseveram) para se cruzarem acidentalmente e se alterarem reciprocamente, manifestando o que chamamos de força. Como capacidade de exibir força, a energia é apenas um constructo teórico, uma expectativa, a energia não é algo com realidade própria.

    Na troca de energia, a conservação de energia significa apenas que a "capacidade de cruzamento" das coisas, no total, se persevera: ou seja é apenas outra expressão da inércia.

    Resumo/conclusão: 

    Só há força quando há o "cruzamento ao acaso" das inércias das próprias coisas. A força não é algo "intrínseco" a nada, mas relativo, ela é um "acidente", já que as coisas só mostram força quando se encontram com outras coisas, ou seja, quando se "trombam" no espaço graças à própria inércia de cada uma. Em suma: a força só existe quando as inércias se "trombam". Do mesmo modo, a energia não possui substância própria, e não só é relativa, como também é teórica, já que ela é a a nossa expectativa teórica ou estimativa da capacidade maior ou menor para que a inércia de uma coisa qualquer "trombe" com a inércia de outra coisa qualquer. Ao trocar energia, as coisas alteram sua disposição espacial, isto é, mudam sua capacidade de se "trombarem"; algumas ganham mais capacidade e outras perdem, mas no somatória total, a capacidade de se trombarem é conservada, e isso explicaria o princípio de conservação de energia, que seria então mais uma consequência da inércia.

    A inércia é que é fundamental.

    Assim, surgem novos elementos para repensar o que foi dito anteriormente no texto "Uma arkhé Acidental?" . Tarefa futura.

    Humana Esfera, 8/2011

      quinta-feira, 16 de junho de 2011

      Pequena crítica antimoralista da dominação (crítica à idéia de "servidão voluntária")

      La Boétie afirmou, com grande perspicácia, que nenhuma dominação seria possível sem o consentimento dos dominados, visto que eles próprios sustentam seus dominadores. Essa idéia, hoje, já caiu no senso comum, de uma forma mistificada, infelizmente, e serve principalmente ao moralismo, que afirma que  os dominados estão na merda apenas por sua pura e absoluta vontade. Assim, bastaria aos dominados mudarem suas vontades para deixarem de ser dominados. Nem é preciso dizer que a idéia de vontade pura é religiosa, supõe que o espírito é uma substância distinta da matéria, uma substância incondicionada,  e, como tal, objeto passível de acusação, julgamento, culpa e penalização, já que teria o infame livre-arbítrio. É inacreditável ver como muitos supostos libertários baseiam seu discurso e sua prática nessa idéia, essencialmente autoritária e paranóica.

      Mas voltemos ao que interessa. Não dá para negar que, sem o consentimento dos dominados, não haveria dominação. Mas esse consentimento seria incondicionado apenas se fosse sobrenatural, como a idéia religiosa de alma. Como nada indica que não sejamos senão matéria, quer dizer, não a matéria amorfa das religiões, mas a matéria cujo automovimento engendra e dissolve suas próprias formas (entre outras, formas de matéria que pensam, sentem e agem, como os humanos, animais, etc.), é extremamente plausível supor que os dominados consentem na sua a dominação não pela vontade incondicionada de sua alma pura, mas sim porque eles são levados a consentir nela por alguma razão, algum motivo, determinação ou circunstância.


      Espinosa parece ter contribuições importantes neste sentido. Segundo Espinosa, os principais motivos que levam uma população a defender seus próprios tiranos são os afetos de medo e esperança, que são inquietações que surgem porque a população está sujeita à condições (afecções) controladas pelo tirano, o que permite ao tirano, por sua vez,  ameaçar impor condições ruins (causando medo) caso o questionem, e prometer impor condições boas (causando esperança) caso o obedeçam. O medo e a esperança, a ameaça e a promessa, são possíveis apenas quando duvidamos de nossas próprias capacidades, quando as condições de efetuar nossas capacidades não nos pertencem, mas a outros.

      Podemos estender o raciocínio de Espinosa e dizer que a população só se liberta da dominação se ela consegue assumir o poder sobre suas próprias condições, se livrando do que causava medo e esperança e, consequentemente, de sua dependência dos dominadores. Mas a decisão de assumir o poder sobre suas próprias condições, evidentemente, também não é uma vontade sobrenatural. O próprio medo e a esperança continuam em ação, porque eles não  sabem se essa tomada das condições é factível e nem mesmo se seus resultados serão desejáveis. Querer acabar com a dominação parece igual a querer trocar o certo pelo duvidoso, e, como vimos, o duvidoso é a própria causa do medo e da esperança, o que nos remete novamente à dominação, que desse modo parece um porto mais seguro. Portanto, inversamente, pode-se dizer que, se a perspectiva de acabar com a dominação trouxesse mais autoconfiança ou menos incerteza (isto é, menos medo e menos esperança) do que obedecer aos dominadores, os dominados teriam todos os motivos para decidir acabar com a dominação e dificilmente poderiam resistir a seu próprio impulso por uma vida melhor.

      Mas o que leva a população a ter essa autoconfiança emancipatória senão as suas próprias condições de existência estarem já sob seu próprio poder de algum modo? Assim, o que ocorre é um processo. Por exemplo, alguns dominados, por circunstâncias imprevisíveis, encontram-se por alguma razão com suas condições de existência sob seu poder e suprimem o medo/esperança tornando-se autoconfiantes, e isso leva a outros dominados a tornarem-se autoconfiantes de buscarem o poder sobre suas condições de existência e assim por diante, do mesmo modo como uma fagulha causa um incêndio.

      Humana Esfera, 06/2011

      Veja também:
      e
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      domingo, 5 de junho de 2011

      A ilusão do (anti-)consumismo - Zé Dostiago

      Muitos chamam a atual ditadura do capital  de "sociedade consumista" ou "sociedade de consumo". Acham que o modo de funcionamento da sociedade atual é dirigido pelo desejo de consumo. No fim das contas, caem no moralismo mais rasteiro, dizendo que a culpa do "mal" seria dos indivíduos que não sabem "frear os seus desejos"   (com a velha ladainha da "revolução interior", etc.). Nada é mais falso e procurarei demostrar isso.


      Em primeiro lugar, de fato, o capital é que dirige todo o processo produtivo, isto é, toda produção se submete a um único fim - acumular valor indefinidamente. Mas como ele acumula valor? Forçando quem produz a trabalhar mais do que para pagar o seu próprio salário. Unicamente esse trabalho não pago "a mais" (mais-valia)  é que pode ser acumulado como valor, só ele é capital, justamente na medida em que não se converte em salário (e nem em renda do capitalista), mas é reinvestido (ampliando a produção) para aumentar ainda mais a geração de mais valor.

      Isso quer dizer que o que o salário (assim como a renda pessoal dos capitalistas) compra é um valor que se "consome", nunca um valor que "aumenta", pois ele nunca se converte em capital, que por definição é valor que se reinveste indefinidamente. Logo, o consumo pessoal jamais poderia ser o objetivo do capital.

      Isso quer dizer também que, na sociedade como um todo, a circulação do valor de todas as rendas pessoais (salários e renda pessoal dos capitalistas) jamais se mistura com a circulação do valor do capital. O valor do capital só pode ser trocado com outro capital, nunca com a renda pessoal. O que é pago pelo consumo pessoal nunca pode cobrir o lucro do capital. De um ponto de vista global, a circulação do lucro só pode ocorrer entre capitais.

      Onde entra então o consumo pessoal, que parece tão necessário para que as empresas tenham lucro? A importância do consumo pessoal é que ele é apenas um dos "inputs" necessários para pôr o capital em movimento. Em suma, o que importa é colocar a maquinaria colossal em movimento, produzir por produzir, não importa o motivo. Por exemplo, não é a compra de automóveis pela população que cobre o lucro da indústria automobilística, a única coisa que cobre o lucro é a troca de mais-valia dessa indústria com outros capitais (por ex. a compra de máquinas de outras empresas e/ou a venda a elas, compra e venda de ações por outras empresas); a compra pessoal de automóveis é apenas um motivo para  que o capital entre em movimento ao fazer carros, fazendo com que a energia dos trabalhadores seja gasta, acumulando mais-valia e trocando essa mais-valia com outros capitais. É verdade que, se não vender carros, essa indústria quebra, mas isso é apenas porque se isso ocorre seu capital (máquinas, etc.) não pode mais ser movimentado pelo desgaste da energia humana dos trabalhadores e não porque os consumidores deixaram de cobrir os lucros da indústria.

      Se o capital necessita do consumo pessoal da população para colocar suas colossais engrenagens impessoais em movimento para se acumular, ele precisa dirigir o consumo pessoal, tornar o consumo individual cada vez mais submetido ao imperativo de ser uma oportunidade de movimentar e acumular capital sugando a energia dos trabalhadores. Isso é conseguido através da publicidade, da propaganda e do frenético desfilar de objetos de consumo pessoal. Daí a aparência "consumista" da ditadura do capital.

      Longe do suposto "consumismo" ser determinado livremente pelos indivíduos por si mesmos, estes não tem escolha a não ser "consumir". Separados de todos os meios de produzir suas próprias condições de existência e, consequentemente, separados dos meios materiais de determinar os seus próprios desejos e de como produzir materialmente sua satisfação (já que o capital é exatamente essa separação dos indivíduos de suas condições de existência, tornando-os proletários, isto é, forçando-os a disponibilizar saus capacidades humanas como um mercadoria, a força de trabalho), só resta aos indivíduos submeterem seu corpo e seu espírito à ditadura da acumulação do valor em troca da sobrevivência.

      Zé Dostiago, Junho de 2011

      terça-feira, 5 de abril de 2011

      Pequeno esboço ético-utópico

      Pressuposição - o que é desejável?: o indivíduo se afirma ao transformar as circunstâncias em que vive, isto é, o próprio mundo material. Transformando as circuntâncias, ele transforma a si mesmo, a realidade que ele cria faz desabrochar em seu corpo novos órgãos sensoriais, estéticos, éticos (isto é, sociais), espirituais, amorosos, etc., em suma tudo o que se chama cultura, ou seja, a própria característica que torna humana a humanidade (sem matéria não pode haver cultura, humanidade).

      Contra o que é esta ética?: O capital (não importa se particular ou estatal, como o cubano) se define, enquanto tal, por separar os indivíduos de todo e qualquer meio de transformar o mundo material, meios que são suas próprias condições de existência (os meios de produção), Assim, impede-os de transformarem a si mesmos de forma autônoma, forçando-os, pela necessidade econômica assim imposta, a vender sua força de trabalho (sua capacidade de transformar o mundo) como uma mercadoria (em troca do salário), a única mercadoria capaz de aumentar o próprio capital, isto é, reproduzir ampliadamente, cumulativamente, a separação das condições de existência dos próprios indivíduos, reduzidos a meros proletários, cujo consumo permitido por seu salário, por mais luxuoso que seja, apenas reafirma sua separação de todo e qualquer meio de afirmar (de forma objetiva, material) sua individualidade como seres autônomos.

      Assim, vamos ao que interessa:

      1-Livre acesso aos meios de produção: derrubada dos muros e transfomação dos meios de produção em praças públicas absolutamente abertas (praças livres).

      • Requisito: abolição da propriedade privada e, dado que a existência da propriedade privada sempre supôs e exige o aparato repressivo, abolição definitiva do Estado e de todo e qualquer instituição armada separada da população. Fim das fronteiras nacionais.
      • Consequências: as forças produtivas tornadas totalmente disponíveis nas praças tornam inútil o dinheiro. A escravidão salarial torna-se impossível. Se alguem quiser alguma coisa, basta chegar na praça e fazer aquilo que se quer. As forças produtivas deixam de ser forças do capital e tornam-se forças dos indivíduos em livre associação em escala mundial.

      2-Livre associação dos indivíduos, isto é, conforme seus gozos, gostos e necessidades, para produzir aquilo que gozam, gostam e necessitam, com as forças produtivas disponíveis nas praças livres.

      • Requisito: ter desejos, necessidades, gozos, fruições. Entrar em relação com outros com desejos etc. afins, formando inumeráveis redes mundiais de fruição produtivas, que são auto-organizativas e existem paralelamente entre si.
      • Consequências: como fruição e atividade vital material não são mais separados, a fruição enriquece-se na experiência material-produtiva da fruição. A experiência material ativa leva sempre a fruição a novos horizontes antes inimagináveis. Por exemplo, minha fruição, como experimento produtivo material, existe não só para mim, mas, em sua objetividade, também para outros, que por sua vez apresentam também a objetividade de sua fruição, que abre novas fruições para mim. Em comparação, no capitalismo, a fruição, reduzida a mero consumo, é sempre subjetiva, impotente, sem objetividade, já que a materialidade do objeto de consumo não é fruto de fruição alguma, mas sim da escravidão salarial, da ditadura do dinheiro.
        3-Objeção: trabalhos indesejáveis, como, por exemplo,  o de lixeiro.
        •  É muito fácil responder a esta objeção: primeiro, graças ao fim da propriedade privada e ao livre acesso às forças produtivas, não há mais trabalhadores nem desempregados, mas apenas indivíduos livremente associados. Portanto, a necessidade de, por exemplo, existir um serviço regular para remoção do lixo, é determinada e realizada (ou não, conforme decidirem) pelos próprios indivíduos em associação, que também decidem como e quando fazer o serviço.
        4-Objeção: o capital deixou regiões inteiras do planeta sem meios de produção, ou com meios de produção inúteis (produção de bugingangas, empresas de finanças, exércitos...) do ponto de vista de uma sociedade livre.
        •  Rascunho (a ser desenvolvido) de resposta: desativação pura e simples de algumas produções.  know how para criar outras necessárias etc.




        Nota para os curiosos: as principais idéias utópicas aqui expostas foram retiradas de Marx: Teses sobre Feuerbach, Manuscritos de 1844 e Comentários sobre James Mill.

        Humana Esfera, Abril  de 2011