quarta-feira, 29 de março de 2017

L´Humanitaire (1841), a primeira publicação comunista libertária (trechos selecionados)



Traduzimos as principais partes e alguns artigos completos do jornal L'Humanitaire, publicado em 1841, em Paris [1]. O jornal exprimia a tendência denominada communistes matérialistes, também chamados communistes immédiats ou humanitaires. Foi “a primeira publicação comunista libertária”, segundo o historiador Max Nettlau. Infelizmente, devido à forte repressão que se seguiu (em que 20 envolvidos foram presos), o jornal foi descontinuado após o segundo número. [2]


Os textos dos dois números do jornal (publicados, respectivamente, em julho e agosto de 1841) defendiam: 

- a criação imediata de uma sociedade “onde toda dominação do homem pelo homem seja inteiramente abolida”; 

- a abolição das fronteiras nacionais (obs.: a palavra humanitaire, humanitário, não existia no dicionário. Era então um neologismo para se referir à ideia de comunidade humana mundial, ao universalismo, internacionalismo, cosmopolitismo etc, ou seja, tinha um sentido diferente de hoje, que se restringe à filantropia estatal, bélica ou burguesa [3]);

- a abolição da coerção ao trabalho, assim como da divisão do trabalho, através da instauração do trabalho atrativo (ideia inspirada em Charles Fourier), numa situação em que os seres humanos viajariam livre e continuamente pelo mundo, deixando “livre curso ao desenvolvimento da fraternidade ao livrar o homem do contato perpétuo com os mesmos seres, o que engendra o apego individual que é positivamente a negação da lei da atração, una e universal” e em que ninguém faria o mesmo trabalho por mais de um dia. E

- coerentemente com a superação da divisão do trabalho, a abolição tanto da venda quanto da troca, numa sociedade que se organiza em função da livre satisfação de todas as necessidades humanas e do livre desenvolvimento de todas as faculdades.

O jornal causou escândalo, sendo fortemente criticado e combatido pelas demais tendências socialistas de então, como os icarianos (seguidores de Étienne Cabet, defensor de um comunismo cristão 
autoritário, pacifista, a-classista,  autor da utopia Viagem à Icária, e fundador do jornal Le Populaire) e os socialistas reformistas com tendências espiritualistas e nacionalistas (como os jornais L´Atelier, Le Travail e La Fraternité) [4]. 
Gabriel Charavay, em 1878

Os redatores de L'Humanitaire eram: Gabriel Charavay (camiseiro, depois jornalista iniciante e livreiro), Jean Joseph May (agrônomo), Julien Gaillard (encanador), Pierre Antoine Nicolas Page (joalheiro). Sabemos os nomes dos outros participantes por causa da forte repressão policial que se abateu sobre eles: a feminista Louise Dauriat, os camiseiros Jean Charavay e Donatien Dauvergne, os joalheiros Anselme Mugnier e Augustin Noël, os tipógrafos François Garde e Claude Chassard, os sapateiros Antoine Fombertaux e Jean Sans, o telhadista Désiré Gaillard, os alfaiates Alexis Trottier e Théodore Ber, o contador Corneille Homberg, o pedreiro Silvain Mourlon, o marceneiro Quéré, o curtidor Auguste Sauvaitre, o secretário de negócios Hyppolite Loudier e o vendedor de vinhos Etienne Rousseau [5]. 

Muitos temas que apareceram em L'Humanitaire, como o das viagens contínuas, reapareceram amplamente desenvolvidos depois, em 1857, em A Humanisfera - utopia anárquica, de Joseph Déjacque. Também em Karl Marx, especialmente em A Ideologia Alemã, de 1846. Por exemplo, a questão da superação da divisão do trabalho por uma livre associação de indivíduos em escala mundial, culminando no tema da abolição do trabalho em si. Nessa obra de Marx, há inclusive frases que parecem quase que transcritas de L'Humanitaire, por exemplo: “O que é a vida senão atividade?” No entanto, não há provas de que eles tenham lido o jornal. É possível que tenham sido influenciados através do contato direto com as ideias circulantes no meio proletário parisiense da década de 1840, ou que tenham desenvolvidos essas ideia por si mesmos, uma vez que os problemas concretos que levam a tratar dessas questões são comuns aos proletários do mundo inteiro, inclusive hoje.

O jornal também publicou uma biografia de  Sylvain Maréchal (que não traduzimos), com quem se identificavam por suas ideias "anti-políticas ou anarquistas".

Aliás, um dos redatores de L'HumanitaireJean Joseph May, é citado pelo espião Lucien de La Hodde, que relatou: “O Sr. Jean Joseph May, que está morto – o Deus da comunidade guarde a sua alma! – não era um homem ordinário, visto que o Sr. Proudhon se dignou a tomar suas ideias. O famoso sistema de governo an-árquico, isto é, do governo sem governantes nem governados, não é nem mais nem menos que a propriedade do falecido Sr. May” [6].

humanaesfera, março de 2017

Notas:
[1] Os dois números de L'Humanitaire em francês podem ser acessado neste link da Gallica da Biblioteca Nacional da França. 
[2] Prehistory of the Idea - Nick Heath



L'HUMANITAIRE, 
 Organe de la Science Sociale 
(trechos seletos)

Abaixo, por razões de espaço, selecionamos apenas alguns trechos, organizados por temas, de nossa tradução mais completa, que publicamos neste link.


[FACULDADES HUMANAS, RAZÃO E UTILIDADE]

"O desenvolvimento completo de todas as faculdades humanas será a garantia da utilidade (*) de todos os seus atos. Assim, o mal, ou seja, o ato pelo qual o homem é nocivo a si mesmo, ou nocivo a um ser de sua espécie, deve se tornar impossível em uma organização social baseada na natureza humana. [...]  Do desenvolvimento completo das faculdades deve resultar a razão, ou o conhecimento exato, preciso, do útil e do nocivo [...]Alguém nos dirá: “não é verdade, portanto, que o homem é mau, já que pretendeis lhe retirar até mesmo a possibilidade de fazer mal?” Não, certamente que não, os homens não são maus; eles são tolos e ignorantes. Uma ordem social em evidente oposição às leis eternas da matéria e às necessidades da natureza humana falsificou todos os nossos conhecimentos, obstruiu o desenvolvimento da ciência e impeliu o homem, ignorante e embrutecido, a cometer atos nocivos à sua conservação. Para remediar o mal, é preciso desenvolver no homem essa faculdade preciosa que ele recebeu da natureza, a razão, fazer dela a medida da satisfação de suas necessidades materiais, uma vez que ela é a única regra que ele pode consultar em cada um de seus atos. Com esse desenvolvimento da razão, se retira do homem toda possibilidade de fazer o mal, pois seria odiosamente absurdo pretender que um homem sensato, que não age nunca fora da razão, possa ser nocivo a si mesmo.

[(*) {Nota de L'Humanitaire:} "Entendemos por esta palavra {utilidade} tudo aquilo que contribui à saúde, à conservação e, portanto, à felicidade do homem; nós chamamos de nocivo tudo que é o contrário disso."]

[...]

Após estudar e pesquisar por muito tempo a solução de todos esses problemas, adquirimos a certeza de que a situação igualitária pode, sozinha, resolver todos eles; nosso jornal provará isso de uma maneira evidente e irrefutável.

A consequência primeira desse princípio sendo a unidade, a indivisibilidade não pode admitir nenhuma divisão, nenhum particionamento do solo. Queremos portanto a comunidade de bens.


[ALGUMAS CRÍTICAS Á L'HUMANITAIRE]

Mas que tempestade de recriminações e objeções essas duas palavras, igualdade e comunidade, não levantam?! “A igualdade, lei absoluta, não existe em lugar nenhum. Sua realização será a negação do ser intelectual e moral! Será a destruição da ciência e das artes, o retorno ao embrutecimento e ao estado selvagem! E a atividade, essa nobre e preciosa faculdade do homem, é aniquilada pela igualdade! E que langor, que monotonia, que coerção na comunidade de bens! Além disso, quanta dissidência entre os comunistas! Cada um entende a comunidade à sua maneira! De onde vem essa falta de unidade? Por que então esse novo jornal comunista, quando já existem dois em Paris?


[FACULDADES INTELECTUAIS E MORAIS]

Os fisiologistas reconhecem no homem três naturezas bem distintas, em outros termos, três ordens de fatos. Há três tipos de necessidade: as necessidades físicas, as necessidades intelectuais e as necessidades morais. Longe de querer contestar essa trindade do organismo humano, de cuja existência estamos perfeitamente convencidos, o que afirmamos é que a sociedade deve satisfazer por inteiro todas as necessidades humanas. Assim, visto que reconhecemos no homem as necessidades intelectuais e morais, cuja satisfação, para nós, é tão imperiosa quanto as necessidades físicas, então estamos longe de querer aniquilar o ser intelectual e moral. Nós demostraremos, pelo contrário, que a organização igualitária permite por si só o desenvolvimento completo de todas as faculdades humanas. Essa é, além do mais, a consequência implicada na fórmula que usamos para anunciar o problema social. De fato, ao colocar como princípio que o objetivo da ciência social é garantir a conservação da espécie humana, com isso implicamos também que ela deve garantir ao homem o desenvolvimento de todas as suas faculdades intelectuais, visto que só esta última indica os meios para chegar a esse objetivo. Desse modo, está aniquilada essa objeção tola de que a igualdade é a negação do ser intelectual.

Assim, cai também aquela outra objeção segundo a qual a lei igualitária destruiria a ciência e as artes.


[ATIVIDADE HUMANA, ATRAÇÃO, UTILIDADE]

Mas a igualdade esmaga, sufoca e aniquila a atividade humana.” Ah! Se fosse assim, nós seríamos bem criminosos, e a igualdade seria uma lei horrivelmente atroz! Mas sabemos que viver é ser ativo. Longe então de querer negar no homem essa necessidade de conhecer, de raciocinar, de agir, e, consequentes com o princípio que expomos, queremos que essa necessidade tenha uma satisfação completa. Provaremos que a situação igualitária pode garantir por si só essa satisfação. Mas não basta que a atividade humana tenha uma satisfação completa para que tudo possa ser melhor quanto a isso. A ciência social, que busca todos os meios que são úteis à humanidade, deve também encontrar o de atrair sem cessar essa faculdade aos objetos úteis, ao invés de deixá-la se perder na aberração ou em futilidades. Cremos que atingir esse resultado é chegar ao último termo da perfectibilidade.


[A QUESTÃO DO LANGOR, DA MONOTONIA E DA COERÇÃO]

Quanto à acusação de monotonia, de langor, que se dirige à comunidade, ela só pode ser feita por quem não tem nenhuma ideia da organização comunista. Veja, com efeito, como essa organização é monótona! O homem, sob esse regime, fará apenas quatro ou cinco vezes a volta ao mundo. A organização do trabalho, ordenada de acordo com o princípio de comunidade, não é menos acomodatícia; nunca, nessa ordem social, alguém ficará ligado por mais de um dia ao mesmo trabalho. Que langor, portanto, nesse estado de coisas onde o homem viajará continuamente. E isso, com o objetivo de operar a mistura a mais íntima da raça humana; de estimular sem cessar sua atividade ao lhe oferecer sempre fatos novos a estudar; de deixar livre curso ao desenvolvimento da fraternidade ao livrar o homem do contato perpétuo com os mesmos seres, o que engendra o apego individual que é positivamente a negação da lei da atração, una e universal. Ó sim! Em uma organização social combinada assim deve existir uma monotonia e um langor insuportáveis. Leitores, não penseis que tudo isso seja um sonho, nós provaremos que é uma realidade.

Após isso que foi dito, cremos ser inútil responder a essa outra objeção: a comunidade impõe ao homem uma coerção insuportável. Certamente, nenhum daqueles que nos fazem essa objeção leva mais alto do que nós o amor pela liberdade. Todos eles ficariam muito embaraçados se pedíssemos a eles o plano de uma organização social onde toda dominação do homem pelo homem seja inteiramente abolida: nós daremos esse plano neste jornal.


[SOBRE AS DISSIDÊNCIAS]

Enfim, responderemos à terceira e última objeção: “os comunistas são divididos; cada um entende a comunidade à sua maneira”. Respondemos: isso é verdade. Mas qual a causa principal das dissidências? Não é preciso procurar por muito tempo; ela se encontra na ausência de uma obra que formule a doutrina de um modo claro e completo. Todas as que foram publicadas até hoje não atingiram o objetivo que propuseram. As obras antigas, bem como as novas, seja por ignorância de seus autores, ou por medo de ferir alguns preconceitos, estão cheias de ideias falsas, de inconsequências e contradições, que, ao invés de reunir, só fazem dividir. Assim, uma obra, ou uma publicação, que exponha claramente e contundentemente a organização comunista é indispensável para restabelecer a unidade na doutrina, e entre os homens que a professam. Nó viemos para realizar essa tarefa. Que não nos acusem de vir para semear a cizânia, buscar e querer a desunião. Todos os nossos esforços tenderão, ao contrário, à reunir os homens de boa fé sob a bandeira da verdade. Somos profundamente convencidos de que a verdade é o mais poderoso elo para reunir os homens, assim como somos igualmente convencidos de que o erro e a mentira são causas eternas de divisão. Não recuaremos nunca diante da verdade, e nos engalfinharemos com os preconceitos que nos impedem de chegar à ela. Guerra mortal a todos os erros, a todos os preconceitos! A mentira já treme ao aspecto da verdade que avança: viva a verdade!(L'Humanitaire, Nº 1)


[LIBERDADE E TIRANIA]

"Dirão que retirando assim do homem a possibilidade de fazer o mal, nós aniquilamos o eu, assassinamos a liberdade humana, constituindo uma tirania de tipo novo, mas não menos odiosa que a que existia? Já declaramos que ninguém é amigo mais ardente da liberdade do que nós, que ninguém abomina mais todas as tiranias; se a objeção fosse verdadeira, nossa doutrina estaria em contradição com a declaração que fizemos. Examinemo-la. Primeiramente, o que é liberdade? O que é a tirania? A liberdade é uma situação em que o homem não obedece a nenhuma autoridade que não a razão; a tirania é o oposto, ou uma situação em que ele é forçado a cometer atos outros que aquele que sua razão lhe dita. O que é então a razão? É a ciência, ou o conhecimento do que é útil e do que é nocivo. Ora, esse conhecimento é fácil de adquirir. Admitindo que o erro tome o lugar da verdade, ele não poderá durar muito; os fatos virão prontamente para desmascará-lo. Portanto, não há tirania na nossa organização, porque o homem não obedece a qualquer autoridade que não a razão; ela por si só possui todas as condições da verdadeira liberdade." (Sobre a ciência social, L'Humanitaire, Nº 2)


[FAMÍLIA, VENDA E TROCA]

"Perguntais [o jornal L´Atelier] se nós entendemos ´por comunidade, essa vida mais íntima onde, no que respeita ao casamento e à família, alguém se associa voluntariamente tanto por necessidade de economia quanto por sentimento de fraternidade, e onde todos os meios de existência seriam comuns´. Nós respondemos que não é assim que entendemos a comunidade, cuja organização, além do mais, não tem nenhuma relação com a associação que nos apresentais. A julgar por essa associação que vosso jornal apresenta, nós estamos muito distantes de vós. [...] Ora, se entre dois homens se encontra um mais forte que um outro, que produz menos, e que, entretanto, tem tantas necessidades quanto aquele (o que não chega a ser tão incomum), então o menos forte será mais infeliz. Mas esse ainda não é o melhor lado da medalha. Suponhamos (o que não é impossível) que o fraco tenha, diferente do forte, uma família a alimentar com o módico trabalho de seus braços. No que se torna a vossa pretensa comunidade de meios de existência? Não é ela uma piada amarga? Uma piada atroz? E isso não é também exatamente a ordem de coisas atual que mudais apenas o nome? Não faleis então de fraternidade, pois ela não faria nenhum sentido em uma associação semelhante.


Quanto ao sistema de venda, não mais que aquele de troca que quereis substituir e que consideramos como uma engrenagem igualmente inútil, eles não figuram nem um pouco na nossa teoria. Cada comuna será suprida abundantemente, pelas vias de transporte, sem a intervenção de vendedores, nem trocadores, dos objetos necessários a todos os seus membros. Basta que a necessidade seja revelada por cada uma para ser satisfeita instantaneamente e com as mesmas condições.

[AS MÁQUINAS, OS PREGUIÇOSOS E A ATIVIDADE HUMANA]

Até agora, estaríeis [o jornal L´Atelier] de acordo conosco, se nós abundássemos no vosso sentido, mas vós vos apiedais se nossas ideias de comunidade forem mais longe; se nós sonharmos ´com essa era de ouro onde o trabalho não passa de uma agradável distração, onde os frutos da terra são tão numerosos que não se poderá recusar inclusive ao preguiçoso que se sente no banquete´. Então, apiedai-vos à vontade, pois a era de ouro que pintastes como um erro é o objetivo constante a que tendemos. Sim, o trabalho, para o homem, não passará de uma agradável distração. E se não tivesse que ser assim, o que significam então essas máquinas que fazem, sozinhas, o trabalho de uma grande quantidade de braços? Por que se inventaria essa multidão inumerável de mecanismos, uns mais engenhosos do que outros, se não fosse para centuplicar o produto do trabalho, abreviar sua duração, e torná-lo atraente suprimindo o que é penoso? Não perguntaremos se sois contra as mecânicas, isso seria vos fazer injúria, pois sabeis tanto quanto nós que, se elas são hoje um grande mal, elas serão um grande bem quando a sociedade for organizada tal como deve ser, e o homem não precisar mais do que conduzi-las e descobrir novas. Mas então queremos saber por que sois tão excitados em favor da reforma industrial? Seguramente não é para deixar o trabalho tão desagradável quanto já é hoje em dia, nem para torná-lo pior.

A palavra preguiçoso não terá nenhum significado na língua da comunidade, assim como ela já não tem na língua atual. O homem é um ser essencialmente ativo; ele tem uma soma de atividade a exprimir; o objetivo da ciência social é dar a essa atividade uma direção boa e não má; útil e não nociva, nem inútil. Hoje ocorre o contrário. Os indivíduos exercem sua atividade em pura perda, em coisas fúteis, insignificantes, de resultados estéreis. Por quê? Porque foram dados maus exemplos de atividades, porque elas são mal direcionadas, porque, enfim, elas se encontram em um meio social vicioso, ao invés de um meio social bom, um meio em que não se teria que fazer e nem se teria visto fazerem senão coisas úteis, e que nada poderia extraviá-las. Desse modo, as palavras preguiça, vagabundagem e ociosidade são vazias de sentido, a menos que se negue o movimento incessante que se manifesta na natureza e, por consequência, no homem, que não é senão uma maneira de ser dessa natureza. Logo, não existem preguiçosos, vagabundos e nem ociosos, mas seres ativos que os vícios da organização social fazem com que se consumam em atos inúteis, e que uma boa sociedade os deixaria se exprimirem em atos úteis.(Resposta ao jornal L´Atelier, publicado em duas partes, nos números 1 e 2 de L'Humanitaire)

[UMA CRÍTICA DO JORNAL LA FRATERNITÉ AO  L'HUMANITAIRE]

Apesar de suas boas intensões”, diz [o jornal La Fraternité], “os redatores desse jornal [L'Humanitaire] concluem diretamente contra os princípios da igualdade, da liberdade e da fraternidade que eles querem, como nós, propagar.

Se cada homem consiste no organismo material, como pretende o jornal, esse organismo deve ser tomado como medida do homem e marcar seu lugar entre seus semelhantes. Ora, vemos os homens divididos em grandes e pequenos, em fortes e fracos, materialmente falando. E se tomarmos as demonstrações palpáveis e visíveis que L'Humanitaire crê serem as únicas demonstrações rigorosas, então os homens são desiguais entre si.

´Com que direito´, o gigante e o atleta questionarão, ´quereis nos fazer crer que estamos no mesmo nível do anão e do doente, nos rebaixando a sua pequenez e fragilidade, uma vez que a natureza visível fez de nós seres grandes e fortes? Nós fomos criados para ser senhores, e eles, escravos. É a lei de nosso organismo.´

L'Humanitaire não poderá contradizê-los, visto que o organismo é sua regra.

Porém, L'Humanitaire , cheio de boas intenções, provavelmente responderá: ´a fraternidade quer que façais, em favor dos frágeis e pequenos, o sacrifício de vossa grandeza e de vossa força´.

O que dizer? Deixemos o gigante e o atleta responderem: ´não nos ensinais que o único motor das ações humanas é a utilidade? Ora, seria útil para nós nos sacrificar em benefício dos mais fracos do que nós? O que receberíamos em troca disso que daríamos a eles? O que é fraternidade? Os homens não são mais irmãos entre si do que são irmãos das árvores e das pedras. Assim como as árvores e as pedras, o homem é uma agregação de moléculas materiais, e tudo que não é ele, tudo que está fora de seu organismo, separado de seu corpo, é estranho para ele. O homem corta as pedras e come as frutas. Ele pode, do mesmo modo, sem escrúpulos, explorar os seres com rosto humano que estão à sua volta. E não digais que nossas necessidades morais não estariam satisfeitas quando tornarmos infelizes aqueles que vós chamais de semelhantes. Nossa moral é, repetimos convosco, a utilidade, e se nos for útil comer os homens, nós comeremos.´

L'Humanitaire, assustado com essa linguagem, tentará murmurar ainda: ´mas o homem é um ser fatalmente social´. Se vós assumis a fatalidade como princípio, ouçamos novamente esses homens fortes e vigorosos que nós supomos que deixais à vontade: ´a fatalidade quer que dominemos, pilhemos, queimemos, devoremos, e se somos os mais fortes, a nossa própria força é uma prova de nosso direito. Se fazemos, com isso, coisas que vos desagradam, não nos culpais, nós não somos livres, mas instrumentos da fatalidade.´

Essas poucas linhas indicam algumas das tristes consequências do sistema materialista, utilitário e fatal em que L'Humanitaire  se baseia.”

[RESPOSTA DE L'HUMANITAIRE AO JORNAL LA FRATERNITÉ]

“O que significam esse gigante e esse atleta? Os atos que vós os fazeis cometer tem alguma relação com aqueles do homem razoável? De um homem que tem o mínimo de bom senso? Eles têm todas as características do selvagem esfomeado, ou de um louco delirante. Como vós vos deixais acompanhar de seres tão singulares? E aonde pretendeis conduzi-los? Se não para casinhas, é certamente para uma selva. Como não somos nada desejosos de nos acompanhar com gente que entende tão pouco de brincadeiras, e nem de ir a um país que, a julgar por seus habitantes, deve ser mais perigoso do que recreativo, vos deixaremos partirdes sozinhos, e apenas pediremos de vós uma descrição quando retornarem. Quanto a nós, nos transportaremos, por um momento, para a sociedade futura, da qual nós desenvolvemos a teoria, e ali colocaremos o gigante, o atleta, o anão e o doente, aos quais devolvemos a razão que tínheis retirado deles tão impropriamente. Vejamos se nós não seremos mais felizes do que vós na nossa observação, e se nós não obteremos melhores resultados. Primeiramente, devemos notar que os quatro homens, cujas faculdades receberam um desenvolvimento completo, são perfeitamente iguais, não iguais em altura e em força, mas iguais quanto à satisfação de suas necessidades e no exercício de suas faculdades, pois cada um consome segundo os seus apetites, e trabalha segundo as suas forças. Estando igualmente satisfeitos os órgãos tanto dos fortes quanto dos fracos, segue-se a mais perfeita igualdade na satisfação normal dos órgãos de cada um. Logo, nossos quatro personagens são consequentemente iguais sem serem igualmente altos nem igualmente fortes entre si. Portanto, eles são livres sem presumir que a natureza teria criado uns senhores e outros escravos. Eles praticam a fraternidade no sentido mais amplo da palavra. E ainda que eles saibam que “assim como as árvores, o homem é uma agregação de moléculas materiais”, não lhes ocorre a ideia de fratenizar com as árvores e as pedras, e por mais tolos que se suponha que sejam, eles reconhecem as funções, as relações, as propriedades específicas dos diferentes modos de ser da natureza. Eles não confundem o reino mineral ou o reino vegetal com o reino animal. Em cada um desses três reinos, eles descobrem também diferentes maneiras de ser. [...]

[RESPOSTA À CRÍTICA DE LA FRATERNITÉ À IDEIA DE VIAGENS CONTÍNUAS PELO PLANETA]

Ele [o jornal La Fraternité] não quer que desejemos ´uma era em que o homem viajará continuamente para operar a mais íntima mistura da raça humana´. Depois do que, La Fraternité acrescenta: ´O que é essa pretensa mistura senão a promiscuidade mais brutal, a mais luxuriante negação da família! O que é uma viagem perpétua que deve livrar o homem do contato diário com os mesmos seres senão a negação da fraternidade, que L'Humanitaire  invoca, e a realização dessa lamentável balada do judeu errante, que nos representa a apavorante tristeza de um homem condenado a correr eternamente pelo mundo, sem poder pousar sua cabeça sob um teto amigo, apertar a mão de um irmão, nem descansar das fadigas da vida no seio de uma família querida! Quem de nós, ao ouvir em sua infância essa estória lúgubre, não choraria pelo isolamento desse viajante forçado, que atravessa as eras como se atravessasse um vasto deserto?! Quem não se lamentaria de não ter nenhuma companhia nem um amigo?! E é essa balada, a mais desoladora idealização do isolamento no qual os homens tem passado até nossos dias, que L'Humanitaire quer nos fazer considerar como modelo de felicidade e perfeição.´

Há nessa passagem muita poesia, alguns termos cuja aplicação é pouco fraternal e, sobretudo, ignorância completa de nossa doutrina. O que significam essas palavras: a promiscuidade mais brutal, a mais luxuriante negação da família, senão que o jornal La Fraternité inventa ele próprio monstros para se dar o prazer de combater? [...]

O jornal a que estamos respondendo pretende que as viagens contínuas, que tem por objetivo preservar o homem do contato perpétuo dos mesmos seres, são a negação da fraternidade. Se tivesse lido a frase completa de L'Humanitaire, teria visto que, longe de destruir a fraternidade, as viagens a consagram em toda a sua plenitude, tornando impossível o apego individual que é positivamente a negação da lei da atração uma e universal.

[...] Não aceitando as viagens contínuas, vós particionais o princípio [de fraternidade] e, sem se darem conta, vós os dividis em muitas partes: fraternidade doméstica, fraternidade da cidade, fraternidade de todos os homens, o que o reduz a quase nada quando se passa por todas essas etapas. A fraternidade não tem graus, não mais do que a unidade, ela não pode ser separada de si própria. Assim, onde quer que se pratique esse princípio, não percebeis a possibilidade de que o judeu errante repouse sua cabeça sob um teto amigo, aperte a mão de um irmão? Perceba que fazeis o judeu errante não se sair melhor do que o gigante e o atleta. Então, deixai em paz esses seres singulares.(Resposta ao jornal La Fraternité, L'Humanitaire, Nº 2)

Tradução do francês por humanaesfera, a partir da versão disponibilizada pela biblioteca digital Gallica, da Biblioteca Nacional da França.

Estes são apenas trechos seletos, para a tradução mais completa, ver: 
L'Humanitaire (1841), a primeira publicação comunista libertária (tradução ampla).



Outros clássicos que traduzimos:

sexta-feira, 24 de março de 2017

A questão da "corrupção" e a vergonha do proletariado de seus próprios interesses humanos

Estamos vivendo uma época de profunda derrota do proletariado. Hoje, os explorados sentem vergonha de seus próprios interesses materiais e, para disfarçá-los, tentam afirmá-los defendendo o interesse do empresariado, do "empreendedorismo", da "competitividade",  que é apresentado a eles como o único "honesto" e "universal", como uma espécie de "imperativo categórico kantiano". Os interesses deles como simples seres humanos de carne e osso lhes causam vergonha porque são considerados por eles próprios como "corrupção", enquanto os interesses mercantis, empresariais, financeiros parecem encarnar liberdade, igualdade, justiça, etc. Por exemplo, vergonha de afirmar claramente que querem uma vida fácil e com tudo de bom sem ter que se submeter aos  "vencedores do mercado", vergonha do interesse de não trabalhar a vida toda e cada vez mais intensamente etc etc. Todos esse desejos, diz-se quase unanimemente, são "corrupção", "jeitinho brasileiro". Para eles, os interesses são sempre corruptos, e os únicos não-corruptos, os "desinteressados", porque respeitam as "regras do jogo", são os "vencedores no mercado", os "empreendedores" etc. 

O que é interessante é que a maior parte do tempo, essa competição declarada pela obediência é "da boca para fora". A maioria está sempre lutando tacitamente para trabalhar o mínimo possível e por fazer ao máximo o que gostam de fazer, contra o mando dos chefes e proprietários. Mas como a confiança uns nos outros é esmagadoramente superada pela confiança em quem paga ou pode pagar os seus salários  (Estado ou empresa), eles evitam falar abertamente de seus interesses uns com os outros (que veem como competidores que ameaçam sua sobrevivência, seu emprego). Desse modo, não conseguem criar uma linguagem que expresse seus interesses humanos, porque tem medo de expressar-los uns aos outros. Eles tem vergonha de seus interesses, que é, como vimos, confundidos com "corrupção". Por exemplo, a maioria se revolta com essas PECs (como a do aumento do tempo da aposentadoria, terceirização etc), porém, como não desenvolvem uma linguagem própria, assumem a linguagem da classe dominante para expressar essa revolta, que então se converte em "revolta na ordem" (aliás, clássica definição de fascismo pelo João Bernardo), uma revolta expressa na linguagem e na forma da classe dominante, a linguagem daqueles que não seriam "corruptos", dos que tem a propriedade privada dos meios de vida e produção, e a quem, na prática cotidiana de guerra de todos contra todos pela sobrevivência, confiam materialmente que, se obedecerem, garantirá sua sobrevivência contra os concorrentes, ao contrário de seus iguais que querem "tomar seu trabalho". Daí a revolta deles se expressa como apelo a uma "força maior" (por exemplo, Trump, Bolsonaro, ou pedidos para que haja chefes que punam e recompensem com mais força e rigor) que resolva todos os problemas através da repressão e matança, para defendê-os contra seus iguais, que são vistos como "inimigos" (tanto os ainda mais pobres quanto estrangeiros, migrantes etc).

Para que os proletários criem uma linguagem autônoma, pode ser útil retomar e aperfeiçoar a ética de Hipócrates, que apresenta uma interessante contraposição ao conceito de "corrupção" incessantemente usado pela classe dominante. Afinal, em seu sentido essencial, corrupção é fazer algo em troca de outro algo (em busca de recompensas e por medo de punições), ao invés de fazê-lo como algo que vale por si só, algo de cuja necessidade, humanidade e ética a atividade de produzi-lo se justifica por si só...

Assim, compartilhamos esse resumo da ética de Hipócrates que encontramos neste blog

"Salvar vidas, a arte da medicina, está acima do poder, do dinheiro e das leis dos reinos em que se passa exercendo a medicina. O verdadeiro significado de corrupção não é quebrar as regras, mas exercer a arte como se não fosse válida por si só, exercendo-a, pelo contrário, por outra coisa alheia, como o dinheiro e as promessas e ameaças de quem tem poder e faz as leis. Se o médico não ama o que faz, ele vai se vender e causará dano, porque seu interesse será ganhar mais, buscando enganar e agradar quem lhe paga; em troca, torna-se escravo de quem tem dinheiro. O médico deve ser livre, autônomo, formando com outros uma comunidade que compartilha livremente as descobertas da medicina, sem se submeter a reinos, cidades ou povos, para servir a humanidade." (Resumo da ética hipocrática baseado nos textos “Acerca da arte”, “Epístolas”, “Preceitos” e outros. Resumo feito a partir de várias fontes, principalmente as contidas no livro "Textos Hipocráticos: o doente, o médico e a doença". Henrique F. Cairus, Wilson A. Ribeiro Jr.)


humanaesfera, janeiro de 2017


Veja também outros textos sobre ética:






quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Dissecando a metafísica da escassez


Anteriormente, criticamos a ideologia da escassez do ponto de vista da transformação da vida cotidiana [1], ou seja, na perspectiva concreta da práxis social-histórica; no entanto, alguns acreditam que, independentemente disso, a escassez continuaria válida como característica inerente ao tempo e ao espaço, como fundamento metafísico (geralmente usam o conceito termodinâmico de "entropia" para fundamentar essa ideia). Com isso, alguns supõem que, nesse universo entrópico, cada ser específico se pauta pela competição recíproca pela escasso, e, consequentemente, também os seres humanos e as sociedades, o que faria a forma social que a escassez toma, a propriedade privada (e, portanto, a sociedade de classes, o trabalho, o Estado e o capital), ter um fundamento eterno, cósmico e imutável. Neste texto, procuraremos criticar essa metafísica de um ponto de vista especificamente filosófico. 

ANAXIMANDRO E DEMÓCRITO


Anaximandro de Mileto
A primeira expressão filosófica da metafísica da escassez que conhecemos foi exposta por Anaximandro, que dizia que o nascimento dos seres é dívida, e que portanto a vida é paga com a morte: 

"Todas as coisas se dissipam onde tiveram a sua gênese, conforme a necessidade; pois pagam umas as outras o castigo e a expiação pela injustiça, conforme a determinação do tempo." (fragmento 1 de Anaximandro). 

[Obs.: É evidente que essa visão moralista da natureza é uma continuidade dos mitos gregos de Diké e Nêmesis, deusas que personificam a "justiça", a retribuição inelutável, a dívida inescapável, e que inexoravelmente "dá a cada um o que lhe é devido". Como veremos, a metafísica da escassez continua até os tempos atuais fundamentalmente religiosa, mítica ou mesmo animista.]

De Anaximandro até nós, a maioria das filosofias se baseou em alguma metafísica da dívida, da troca de equivalentes, das recompensas e punições. Nos tempos modernos, o representante talvez mais respeitado (por causa de suas pretensões científicas) dessa metafísica é o entropismo, ideologia que afirma que, sendo o aumento da entropia (portanto, a morte) a regra geral do universo, cada ser é explicado por estar energeticamente submetido a uma relação de austeridade e dívida energética a ser estritamente equilibrada, compensada, paga no futuro.

Porém, uma outra corrente, subterrânea na história da filosofia, também se expressou ao menos desde a Grécia antiga: Demócrito e os demais materialistas afirmavam, de modo geral, que, se existimos, é porque somos gratuitos, supérfluos, já que não haveria nenhum sentido anterior à própria existência: seríamos fruto do acaso (Diné de Demócrito, Clinamen de Lucrécio) - e a necessidade (e portanto, o tempo) é a consistência de cada existente pela qual ele dura, expressa e desdobra essa gratuidade de, em e além de cada ser singular, ou seja, é sua liberdade. [2] 


Demócrito de Abdera
Desse modo, reconhecendo que a "regra geral da natureza" é a decomposição, destruição, aumento da entropia (p. ex., o tempo -  verificado pela morte, a que tudo está mais cedo ou mais tarde submetido - e o espaço - os corpos não ocupam o mesmo lugar etc - esse primeiro esboço do conceito de entropia já era conhecido pelos materialistas antigos), os materialistas concluem, ao contrário do que pensava Anaximandro,  que isso significa que cada ser específico que surge e perdura nesse universo se fundamenta na gratuidade, desperdício, superfluidade, dissipação. 

Essa afirmação fica clara levando-se em conta o modo como os materialistas explicam o mundo: o tempo todo, no universo, incontáveis eventos ou composições (no caso, os atomistas pensavam nas combinações entre os átomos) acontecem simultaneamente, mas como a esmagadora maioria dessas composições não encontra consistência, elas não perduram, se decompõem e se dissipam rapidamente. Por esta razão, é improvável, raro, que algo singular exista além da decomposição praticamente instantânea. A improbabilidade de surgirem e existirem as exatas coisas singulares que percebemos perdurarem e se desenvolverem a nossa volta, assim como nós mesmos, é ainda maior, é praticamente infinita. É por isso que cada ser singular que surge e perdura no universo é gratuito, sem dívida, sem culpa, porque não possui nenhum sentido singular pré-escrito na "lei geral da natureza", que é destruição dissipativa. Ou seja, é pela gratuidade, é pela superfluidade que existimos, agimos e criamos. Não devendo nada a alguma lei transcendental de escassez geral, até porque, na verdade, o que é geral não é escassez, mas abundância destrutiva, superfluidade dissipativa, "lei geral" que é responsável pela destruição, ao fim inevitável, mas não pela geração nem pela duração e tampouco pelo desenvolvimento dos seres (como diziam Lucrécio e Epicuro, na prática, "a morte não é nada para nós"). [3] 

[Obs.: Não é difícil perceber que a ciência moderna, quando despida das intepretações que dão um viés escassista a ela, mostra que não é a austeridade contábil da troca de equivalentes, mas o desperdício e a dissipação é que é o fundamento de cada ser específico que surge e persiste. 
Um exemplo básico é o do fluxo termodinâmico sol-> planeta Terra->seres vivos [4]: o sol dissipa uma imensamente colossal quantidade de energia pra todo lado sob a forma de partículas e ondas eletromagnéticas (uma parte da qual é a luz). Quase tudo isso é desperdiçado em direção ao vazio espacial. Uma pequenina parte dessa energia desperdiçada do sol, mas ainda colossal, se dissipa por acaso na Terra. A Terra dissipa igualmente essa energia para todo lado, enquanto uma parte é desperdiçada nas bactérias e plantas que fazem fotossíntese. As bactérias e plantas também dissipam abundantemente "à toa", e parte dessa dissipação é desperdiçada nas outras bactérias, insetos e herbívoros que as devoram com superfluidade. Estes últimos são desperdiçados nos predadores, que também devoram uns aos outros avidamente, num gritantemente notório desperdício vão de energia. E parte da dissipação de todos esses seres, por sua vez, é desperdiçada nos humanos, que também desperdiçam essa energia "à toa", criando gratuitamente suas relações, a sociedade, a indústria, o conhecimento, a arte, a linguagem, cidades, imaginação, engenhosidade etc. 
Apesar de no modelo explicativo dos materialistas antigos não existir ainda essa visão termodinâmica, ela é em grande parte compatível. O sol, como tudo mais (inclusive nós), é considerado uma composição de átomos surgida fortuitamente em determinado momento, e que está se desintegrando continuamente, se dissipando para todo lado até morrer (sua luz é o resultado dessa desintegração). Porém, se quisermos deter o desperdício (acumulando,  "conservando"), o resultado é que o sol morreria mais rápido, ou até instantaneamente numa explosão, e não teria tempo para "sua natureza", suas ricas potencialidades qualitativas, se desenvolverem e se expressarem ao máximo.]

Contudo, essa visão global não é e nem pretende ser "reconfortante". Ela não fornece nenhum princípio ético e tampouco qualquer modelo para uma sociedade melhor. Dado que a "lei geral da natureza" é abundância destrutiva, desperdício dissipativo, a ideia de "ordem natural" (ou "equilíbrio natural"), ideia que pressupõe a crendice em alguma espécie de "mão invisível", é uma infeliz invenção da imaginação humana. Ela simplesmente não existe na natureza. 

O CREDO NA "MÃO INVISÍVEL"  (OU "ORDEM NATURAL", "EQUILÍBRIO NATURAL"): MORALISMO E TEODICEIA

O fato é que a natureza é incessante desequilíbrio cego e indiferente, um conjunto de forças completamente insensíveis ao sofrimento, assassinato, tortura, abundância, escassez, e à própria vida de todos os seres vivos. Além da história de catástrofes sem fim da geologia e atmosfera do planeta terra, assim como dos planetas, asteroides, sois e cometas, basta observar a notória superfluidade destrutiva da cadeia alimentar. Mais de 99,99% dos seres vivos vive de ferir e/ou devorar outros seres vivos, a tal ponto que nem sequer os seres mais inofensivos da cadeia alimentar, como as plantas, são "pacíficos", mas venenosos para outros (traduzindo: assassinos; aliás são dos venenos das plantas que vem todas as propriedades medicinais delas que usamos graças à nossa ciência, empiria e técnica), espinhentos (traduzindo: torturadores), monstros vorazes para muitos outros pequenos seres ingênuos que metem seus bedelhos neles (fungos e bactérias, por exemplo, atacados pelo sistema imunológico vegetal)  etc. Isso sem falar da interminável competição cega dos seres por nichos que extinguiu 99,99% de todas as espécies que já existiram na terra desde o surgimento da vida. Até mesmo uma das moléculas mais básicas necessária à nossa vida atual na terra, o oxigênio, um gás venenoso para os primeiros seres vivos, foi introduzida "artificialmente" na atmosfera (antes predominantemente de CO2) pelos primeiros seres a fazer fotossíntese (provavelmente cianobactérias), levando a uma extinção em massa colossal. 

Por outro lado, justamente porque o desperdício destrutivo é a regra geral da natureza, cada ser singular que existe e persiste necessariamente se pauta, ao contrário, pelo desperdício construtivo, criativo, afirmativo, pelo qual afirma sua existência [5]. Porém, a medida em que cada uma dessas abundâncias afirmativas singulares se expressa em um meio comum indiferente e cego, o resultado de suas expressões tende a se voltar contra elas mesmas, ou seja, nessas circunstâncias cegas ocorre o efeito colateral de a afirmação de cada uma tender a decompor e negar a afirmação das outras e, daí, cada uma nega a si mesma mediante as outras. Isso porque, se as expressões construtivas continuarem afirmando essas circunstâncias cegas e indiferentes para se expressarem, elas intensificam as condições que as obrigam a deter a expressão do dinamismo de sua riqueza, a conter a abundância de suas relações com os outros, a se embotar, acumular, competir, se privar e, por fim, a se engajar na destruição supérflua de si própria. 

A metafísica da escassez, no entanto, "naturaliza" essas circunstâncias, santifica esse estado de coisas cego, até o ponto de extrair dele todo um "moralismo da escassez" que busca justificar e exaltar o sofrimento, esgotamento, tortura e morte como "feedback negativo" (retroalimentação negativa) objetivamente necessário à conservação, preservação e regulação "holísticas" da natureza e da sociedade. É uma verdadeira teodiceia, uma autêntica religião, esse culto da "mão invisível".

Não é por nenhuma "regra geral da natureza", nenhum "holismo", mas apenas a partir das abundâncias afirmativas singulares que a espécie humana - cuja singularidade é que seus indivíduos são capazes de desejar, pensar, se comunicar e agir - pode desenvolver uma ética e, portanto, um projeto de transformação tanto das relações sociais quanto de suas condições naturais. Se somos supérfluos, então é completamente arbitrária qualquer ideia de dívida ou culpa, de justificativas, teodiceias, assim como qualquer remuneração por qualquer tipo de equivalência de "valor", pois não há qualquer ser transcendente que "retribua à cada um a sua parte". Pelo contrário, se os singulares são supérfluos é precisamente porque se justificam por si sós, pela sua simples existência, composição e expressão. 

Trata-se então, para os seres humanos, de transformar as circunstâncias de modo que, nelas, as capacidades e necessidades humanas possam se afirmar como válidas por si sós, e não mais como instrumentos, meios e objetos de julgamento e retribuição conforme uma maior ou menor obediência a um fim pré-determinado (valor, mercado, propriedade privada, Estado, religião, identidade, nacionalidade, gênero etc). A liberdade é a necessidade irretribuível de cada singular, porque eles e suas expressões valem por si mesmos, são fins em si. Portanto, liberdade é: "de cada um segundo suas capacidades, à cada um segundo suas necessidades". [6]

[Obs.: Isso contrasta com a ideia equivocada de que liberdade é livre-arbítrio. Livre-arbítrio nada mais é do que escolha de elementos em circunstâncias pré-estabelecidas, aceitando essas circunstâncias como imutáveis. Essa liberdade
é ilusória, já que a imposição do livre-arbítrio, da livre-escolha, é a base de
qualquer relação de dominação. Isso porque o único modo da classe dominante colocar-se como dominante é tendo o poder de retribuir, com prêmios ou reprimendas, a submissão maior ou menor dos dominados, o que só é possível se eles dão aos dominados a liberdade de escolher, entre duas ou mais coisas, caminhos ou ações predeterminadas, pré-fabricadas, pré-armadas pelos dominadores. Somente assim podem julgar quem é mais ou menos obediente (julgar o "livre arbítrio" ou "deliberação", "esforço", "mérito" deles), retribuindo a cada um em vistas a intensificar as circunstâncias de competição que levam os explorados a continuarem ou até aumentarem sua sujeição. Livre-arbítrio implica sempre em submissão às condições pré-estabelecidas de escolha. A verdadeira liberdade, pelo contrário, só começa pela transformação das circunstâncias, das condições de existência. Ou seja, liberdade pressupõe que essas condições deixem de ser propriedade privada (abolindo assim do poder dos dominadores) e se tornem as condições comuns da livre expressão prática dos indivíduos livremente associados sem fronteiras (comunismo).]

Como já expomos em outro texto uma ética imanente, materialista [7], trataremos agora das alegações pretensamente científicas dos adeptos da metafísica da escassez, em especial o entropismo.

FETICHISMO DA MERCADORIA, CIÊNCIA E CIENTIFICISMO NA IDEOLOGIA DA ESCASSEZ

Que os seres já surgidos comecem inevitavelmente a se desintegrar, a se dissipar até desaparecerem (entropia), não há dúvidas disso. Mas essa, como vimos, não é toda a história. Porque há também atividade, atuação: essa dissipação supérflua pode gerar (ou não) outros seres singulares (dentro e/ou fora de dele mesmo e/ou entre e/ou além) igualmente supérfluos, assim como aqueles seres que já tinham surgido também foram gerados pela dissipação supérflua de outros seres que confluíram nele e o compuseram. É nessa parte da história (e não na parte "status quo em perigo") que está tudo que conhecemos, fazemos, experimentamos e nós mesmos. A atual ideologia da escassez com pretensões científicas é míope, porque ela se ocupa exclusivamente da dimensão de dissipação estéril dos seres já surgidos, só enxergando formas pré-existentes, e generalizando isso na visão de um universo austero regulado pela troca de equivalentes, numa competição pela escassez que recompensa ou reprime conforme um padrão pré-estabelecido, transcendente. Com isso, essa ideologia é incapaz de se dar conta do surgimento, da atividade, do vir-a-ser, do devir, mas apenas do "status quo", do já existente.

Em que se baseia essa miopia? Ou melhor, epistemologicamente, em que situação material, a atividade, o devir, não podem aparecer, ficando ocultos? Isso só é imaginável numa circunstância material em que cada devir ou atividade singular é separado e isolado dos outros, de suas relações específicas, e unificados sob uma mesma forma geral pré-existente. 

É precisamente assim a sociedade capitalista: as múltiplas atividades singulares assumem a forma de "trabalho", em que cada devir é privado (propriedade privada) de suas relações para ser incessantemente remetido à comparação com outros (competição) conforme um mesmo padrão geral pré-estabelecido de equivalência quantitativa abstrata: o valor, a troca de mercadorias, o dinheiro, o Estado. Trata-se de uma sociedade em que, privada das condições materiais de atuação, a atividade produtiva humana só é permitida se for serviçal da reprodução ampliada do trabalho morto, do capital, do lucro; em que os produtos das atividades humanas simultâneas que abrangem o mundo inteiro, aparecem aos próprios seres humanos não como expressões de sua atividade associada em escala global, mas, pelo contrário, como se os produtos resultantes fossem dotados de uma existência independente, como propriedade privada, empresa, mercadoria, capital e Estado, em suma, como mercado mundial. Isso porque, privados de suas condições de existência, os seres humanos se tornam impotentes enquanto seres humanos, e, para sobreviver, são forçados a alienar (vender) suas capacidades de agir e de pensar à quem tem a propriedade privada dessas condições; consequentemente, as capacidades humanas são atribuídas às coisas, à propriedade privada, à classe proprietária (os capitalistas, i.e., o empresariado particular e estatal). Os seres humanos encontram suas próprias capacidades como atributos não deles mesmos, mas do dinheiro, da propriedade privada, da empresa e do Estado, personificados como um poder alheio, privado e hostil (o capital) na classe dominante. É uma determinada relação social entre os homens que assume, a seus olhos, a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas (fetichismo da mercadoria). [8]

Então, em um ambiente onde todo devir é incessantemente remetido à reprodução ampliada do trabalho morto, os seres singulares não aparecem socialmente, publicamente, como atividades, mas como rastros, resultados, produtos, mercadorias, instrumentos, "serviços", "trabalhos".

E nesse ambiente também estão os que fazem ciência. Ninguém tem acesso "sobrenatural" à natureza (se alguém afirma isso, esse alguém é religioso, não cientista), porque inclusive os cientistas são seres naturais. Eles perscrutam a natureza tal como ela lhes aparece, e tal como eles a fazem aparecer mediante instrumentos, metodologias e experimentos. Alguns aspectos do que lhes aparece é realçado e destacado em detrimento de outros pela simples razão de que o que pode aparecer a eles passa inerentemente por suas relações sociais: um cientista pode ser um trabalhador assalariado (ao invés de fazer ciência em livre associação com outros no mundo inteiro que também desejam e fazem ciência como um fim em si, como atividade livre), seus instrumentos, componentes e insumos são comprados (ao invés de terem sido determinados livremente pela sua atividade em associação com outros que, no mundo, desejam produzi-los), e também a determinação e escolha de seus objetos de estudo exprimem necessidades e capacidades humanas formadas e desenvolvidas em específicas relações sociais.


Assim, por exemplo, os conceitos de "trabalho" e "energia" foram separados dos demais conceitos da física e cunhados com esses nomes próprios (tornando-se inclusive os conceitos centrais das ciências naturais) no preciso momento da revolução industrial (séculos XVIII-XIX), quando o capital (que então se tornou produtivo, industrial) colocava a questão de extrair o máximo de trabalho "útil" das forças naturais e humanas disponíveis, com o propósito de aumentar ao máximo a diferença entre os custos de produção e os preços de venda de seus produtos, ou seja, os lucros. Foi a partir do problema do "peso levantado até certa altura" no uso, por empresas mineradoras, dos primeiros motores à vapor para levantar baldes de água de minas alagadas, que, em 1826, Gaspard-Gustave Coriolis introduziu na física o conceito de "trabalho" e seu nome próprio. Já o de "energia", foi introduzido em 1807, por Thomas Young. Antes disso, os conceitos centrais da física eram os de "momento de inércia" e "força" (como em força da gravidade, força elétrica, força magnética etc) [9].


Isso não quer dizer, é claro, que, no século XIX, a ciência "tenha errado" e nem que esses novos conceitos sejam "falsos", mas sim que os cientistas perscrutam o mundo, com sua rigorosa metodologia, a partir das circunstâncias com que se deparam, a partir dos problemas e perspectivas que essas circunstâncias colocam. Desse modo, toda ciência que desde o século XIX se desenvolveu a partir dos conceitos de "energia" e "trabalho" (em especial o de "conservação de energia") realmente foi se tornando cada vez mais capaz de explicar de maneira inigualável e precisa as condições precedentes para qualquer evento. No entanto, é míope para os próprios eventos em questão, porque eles são tomados como formas já existentes, já conhecidas, e não enquanto devires, atividades. A razão disso é que, na sociedade capitalista, como vimos, os seres singulares, humanos e não-humanos, não aparecem socialmente, publicamente, como atividades, como atuações, como devires, mas como rastros, resultados, produtos, mercadorias, instrumentos, "serviços", "trabalhos"; então, qualquer análise científica objetiva dos seres nesse ambiente (sociedade capitalista) encontra-os apenas como seres privados de e subservientes às suas condições de existência precedentes que se acumulam como trabalho morto, propriedade privada, capital.

No entanto, ao contrário dos cientistas que permanecem rigorosamente objetivos, os adeptos da metafísica da escassez encontram esses conceitos científicos, que expressam objetivamente o que pode ser apreendido da natureza a partir das necessidades e capacidades humanas desenvolvidas na sociedade atual, e se apropriam deles para compor uma religião cientificista que naturaliza, justifica e exalta a (auto)repressão, a máxima coerção ao trabalho, a intensificação da competição, o ascetismo, o exclusivismo e o banimento. Tudo em nome da preservação de um "status quo" que teria sido fruto meritório de um árduo, esforçado, "complexo", "equilibrado" e sofrido passado cujo questionamento, na opinião deles, poria "tudo a perder".

IDEOLOGIA APLICADA DA ESCASSEZ: ECONOMIA E ECOLOGIA 

Por fim, vale a pena se deter nas peripécias da palavra e do conceito de "economia", que são muito curiosas. Ela chegou até nós, da Grécia antiga, através da teologia. 


Inicialmente, na Grécia, oikonomia era como se designava o comando, a administração (nomos, em grego), pelo pai/senhor (despotes, kyrios), dos escravos/servos de sua propriedade (oikos). Essa propriedade era ao mesmo tempo residencial, agrícola e escravista. Já fora da oikonomia, na polis, a relação entre os proprietários de escravos era chamada polítika, em que os senhores se consideravam iguais (isonomia, isegoria, isokratia). Em contraste, na propriedade escravocrata, no oikos, se constituia a família (oikogéneia), composta por aqueles sobre os quais o despotes tinha poder de vida e de morte: os escravos e servos, entre os quais se incluíam sua mulher e os filhos, além dos fâmulos adquiridos. Este foi o primeiro sentido da palavra. [10]


Pantocrator 
A seguir, quando o cristianismo se impôs (séculos III-XV) nas regiões em torno do mar Mediterrâneo e depois em toda Europa, o mundo e a humanidade passaram a ser considerados uma propriedade doméstica (oikos) comandada (nomos) por deus (providência). O governo de deus sobre o mundo, a execução pelos homens do comando de deus mediante o poder da igreja, dos reis e dos senhores feudais, a teodiceia (justificação dos sofrimentos e do mal), o gênesis, o plano de salvação e julgamento da humanidade no apocalipse, tudo isso tinha um nome: economia, economia da salvação, economia divina. E este foi o segundo sentido. [11]

Depois, na época do mercantilismo (séculos XV-XVIII), quando o capitalistas começaram a se impor e a transformar o mundo inteiro (colonização de quase todos os continentes etc) através dos Estados mercantilistas (que foram os primeiros Estados no sentido moderno do termo, o de ser uma entidade distinta das castas, da "sociedade civil") que ele financiou para impor pela força das armas o comércio e o monopólio de rotas comerciais em todo planeta, as categorias do pensamento religioso, inclusive "economia", começaram a ser secularizadas. Nesse período, "economia" era como se chamava a administração governamental dos Estados mencantilistas, que eram monarquias absolutistas e que se acreditava serem fundadas por "direito divino". Tal foi o terceiro sentido. [12]

Por fim, o quarto e último: na revolução industrial, no fim do século XVIII, quando o capital assumiu a produção (que antes era pré-capitalista, enquanto capitalista era apenas o comércio dos produtos), sugindo o capital industrial (graças à imposição do trabalho assalariado, só possível mediante a sistemática separação dos componeses e artesãos de seus antigos meios de vida, formando o proletariado), as categorias do pensamento religioso cristão foram plenamente transcritas para uma "religião secular objetivista", em que uma curiosa "mão invisível", por vias indiretas e misteriosas, governaria tanto mais para melhor quanto maiores os sofrimentos, sacrifícios e esgotamentos dos seres humanos privados de meios de produção (proletários) na concorrência desesperada por conseguir sobreviver vendendo a única coisa que ainda possuem, ou seja, a si mesmos, no mercado de trabalho, aos proprietários privados desses meios (capitalistas), em troca do salário. Essa entidade misteriosa (a economia) promoveria tanto maior prosperidade quando mais os proletários se engalfinhassem por obedecer e se sacrificar à classe proprietária. 

Então, a palavra "economia", do berço escravocrata passando por suas vestes teocráticas adultas, desembocou na designação de um tipo de entidade religiosa que não é mais identificada como religiosa, mas como a própria "verdade absoluta", "a realidade tal como ela é de fato e à qual é dever se curvar". É uma espécie de neo-animismo [13]. A economia, em suma, é o próprio fetichismo da mercadoria, que surgiu com o domínio do capital sobre a sociedade mundial. Esse domínio se caracteriza pela ditadura da produção pela produção que é o trabalho assalariado, em que, como vimos, os produtos das atividades humanas aparecem aos próprios homens não como resultados de sua atuação associada, mas como uma força independente, autônoma, como se se produzissem, se movessem e se distribuíssem mediante uma lógica própria e misteriosa: "sistema de preços", "oferta e procura", "mão invisível", "destruição criadora", "demanda agregada" etc. 

Por outro lado, se a economia é uma teodiceia, justificando os sofrimentos, sacrifícios e males em nome de algo imaginário que por vias misteriosas promoveria o bem geral, não menos pior é a ecologia.

O movimento ecológico moderno se baseia em conceitos da "cibernética", "holística" e "teoria de sistemas" (todos eles variantes da metafísica da escassez) visando reestabelecer politicamente o "equilíbrio natural", a "sustentabilidade", a "homeostase" do organismo holístico que seria a natureza como um todo. O processo homeostático em questão englobaria todos os seres, os quais, nas suas interações, estabelecem "feedbacks negativos" (mortes, escassez e catástrofes) responsáveis por manter a sustentabilidade do sistema ao longo do tempo ao contrabalançar os
Retroalimentação (feedback) negativa 
"feedbacks positivos" (por exemplo, reprodução sem freio de uma espécie) que de outro modo se acumulariam, levando ao colapso do sistema. O erro dos seres humanos, segundo eles, foi interferir no processo holístico da natureza, que seria tão complexo que seria impossível de ser compreendido pelos humanos (cuja atuação pressupõe sempre um conhecimento inerentemente "reducionista"), de tal modo que quando estes interferem, o resultado seria sempre catastrófico.


Mas já vimos que a natureza é, de fato, incessante desequilíbrio, um conjunto de forças cegas e indiferentes, e a ideia de uma "ordem natural" não passa de invenção da imaginação humana. Se a humanidade quiser por em prática a ficção ecológica de uma "ordem natural" independente dela, ela terá que se entregar a esses processos cegos, violentos e indiferentes, "naturalizá-los" e aceitar agir do mesmo modo. Quando se faz isso, a morte e o sofrimento de cada um passam a ser considerados uma prática aceitável (como "feedback negativo" necessário à "homeostase") para que o suposto todo, o sistema holístico, seja sustentável. Trata-se de uma teodiceia tão mitológica que é praticamente uma recriação dos ritos sacrificiais de "restauração da ordem cósmica" do antigo paganismo. Mas, como toda mitologia, teologia e religião, isso não existe na natureza, é uma invenção delirante especificamente humana. Nenhum outro ser vivo age mediante uma "percepção imaginária extraterrena" (holística) de si mesmo no mundo, indiferente ao seu próprio sofrimento e morte, em nome da uma imaginação demente em sua cabeça. 

[Obs.: Ainda mais perturbadora é a história da ecologia [14]. A palavra e o conceito de "ecologia" foram introduzidas por Ernst Haeckel (1834-1919), que pregava que a natureza é um organismo unificado e equilibrado (oikos), e que a sociedade humana deve ser reorganizada de acordo com a lógica da natureza (daí,com oikos e logos, cunhou a palavra ecologia). Anti-iluminista, nacionalista e eugenista, ele foi o primeiro a usar a teoria da evolução das espécies para propor uma classificação hierárquica das raças humanas. Segundo ele, "a política é biologia aplicada". Sua teoria ecológica, através da esotérica e espiritualista Sociedade Thule, na qual participava, se vinculou diretamente às origens da ideologia nazista. Esta última afirmava, baseando-se também nas teorias da competição do economista liberal Herbert Spencer (darwinismo social) e no misticismo racista de Madame Blavatsky (teosofia), que o equilíbrio orgânico da ordem natural primordial (ao mesmo tempo biológica, divina e mística) decorreria da competição sem tréguas de cada um (cada indivíduo, cada nação, cada raça) por ocupar nichos na "ordem natural". O primeiro governo que colocou a ecologia como meta principal foi o nazista, criando as primeiras reservas naturais, leis de proteção dos animais e inclusive tentando se basear na agricultura orgânica, além, é claro, dos campos de extermínio.]

Evidentemente, criticar a ecologia não significa que defendemos a destruição do meio ambiente. O que afirmamos é que, como não existe nenhum ponto referencial "superior" (como a fantasia mitológica/teológica de uma providência chamada "natureza", "gaia", "ordem natural") fora das necessidades e capacidades dos próprios seres humanos para eles mesmos decidirem suas vidas e suas ações, a questão de não destruir o ambiente natural em que vivemos e os demais seres vivos só pode ser levantada e assumida por nós mesmos, pelos seres humanos, a partir do que considerarmos (mediante conhecimento, ciência, ética, técnica, desejo etc) necessário fazer e capacitados para fazer. Simplesmente porque, para agirmos, só temos as nossas próprias capacidades e necessidades, com as ideias, ciência e práticas que criamos a partir delas, e com as quais pensamos e agimos com algum êxito ou não.


ADENDO: A ILUSÃO DA "DÁDIVA" PRÉ-CAPITALISTA


Potlatch
Conhecer o passado ajuda a saber que nem a sociedade capitalista, nem troca de mercadorias, nem a família nuclear e nem o Estado são eternos e que a humanidade viveu por muito mais tempo de outra maneira. Porém, alguns perscrutam o passado acreditando que antes da sociedade capitalista, vivíamos "naturalmente" (conforme uma suposta "ordem natural") enquanto que agora viveríamos "artificialmente". Um dos temas prediletos e mais exaltados por quem assim pensa é o da "dádiva", "dom" ou "troca de presentes" (cujo exemplo mais conhecido é o potlatch), um modo de distribuição dos produtos que contrasta com a troca de mercadorias generalizada que caracteriza a sociedade capitalista. Eles chegam ao ponto de considerar a "dádiva" pré-capitalista como o modelo "natural" para uma nova sociedade após a atual. Acreditam que a "dádiva" expressaria abundância em uma ordem social supostamente natural que querem restaurar, enquanto que, na verdade ela era um mero sistema de alianças por dívidas. Aqui queremos brevemente mostrar que as condições pré-capitalistas que faziam a "dádiva" fazer sentido não só são sem retorno, como também são absolutamente indesejáveis por qualquer um em sã consciência hoje.

Antes de tudo, como Mauss e Malinowski mostraram, a dádiva das sociedades tribais era um sistema de coerção endividada, inclusive, muitas vezes, um sistema de dominação brutal de alguns clãs sobre outros [15]. 

Em sociedades tribais em que os clãs não se hierarquizavam, o "dom" consistia  em laços coercitivos resultantes da desconfiança entre tribos sempre à beira da guerra entre si (segundo Pierre Clastres, era esse estado de guerra generalizada que impedia o surgimento do Estado, o surgimento das castas [16]). O "dom" era o rito de uma guerra invertida, em que cada lado, sempre extremamente desconfiado, tinha que provar sua confiança no outro clã através da concorrência de dar mais no futuro do que recebeu de presentes. O fato de não dar imediatamente quando se recebia era considerado uma prova de que não se desconfiava do outro clã, e que os laços entre eles seriam mantidos. Mas caso algum lado, por qualquer razão, fosse considerado apressado em retribuir ou se passasse a retribuir com menos (ou mesmo se achasse antecipadamente que o outro ai achar qualquer dessas coisas), isso era considerado prova definitiva de desconfiança, de quebra de laços. E então declarava-se guerra. A guerra era fundamental, porque se não fosse declarada guerra, formar-se-ia uma relação em que um clã se sobrepõe a outro (castas). Sem guerra nas sociedades tribais, o dom se torna dívida "infinita" de um clã (o que dá menos) para outro (o que dá mais), a ser paga como sujeição de castas, fazendo surgir o Estado (no sentido pré-capitalista de domínio de uma casta sobre outras). Na antropologia, esse é o caso mais clássico de todas as "dádivas", o potlatch, praticado por uma sociedade de castas da América do Norte [17].  

O que é evidente é que a dádiva tribal não parece de nenhuma maneira servir como modelo para nós hoje. A própria possibilidade do "dom" pressupõe a propriedade coletiva tribal sobre objetos produzidos por ela privadamente diante de outra propriedade coletiva tribal de outros objetos produzidos privadamente frente àquela e vice-versa. Pressupõe portanto, a troca entre propriedades privadas (propriedades que eram pré-capitalistas, mas ainda assim, de fato, coletivamente privadas reciprocamente), que é "dom" (laços de dívida) enquanto não é guerra e que se torna mercado (por exemplo, escambo) durante a guerra declarada, quando cada lado exigia uma retribuição imediata, rápida, de bens, "com valor equivalente", "justo", porque então já não confiavam absolutamente um no outro. 

Hoje, os meios de produção são materialmente comuns em escala mundial (nada, nem em termos físicos nem intelectuais, é produzido privadamente), e, consequentemente, na perspectiva atual de um mundo libertário (ou seja, comunista), o desfrute das forças produtivas não pode ser nem "dom" nem troca de mercadorias, mas uma auto-realização autônoma e gratuita propiciada pelo livre acesso por todos às forças produtivas comuns, que são as condições de existência (meios de produção) mundialmente interconectadas.

Mas voltemos às sociedade pré-capitalistas para ter uma noção melhor das condições concretas nas quais se encontravam e reproduziam suas relações sociais. Para cada tribo, todos os outros humanos eram  bestas, não-humanos ou falsos humanos (e eram assim denominados), contra os quais, como vimos, se estava em estado de guerra constante ou latente. Para marcar o pertencimento à essa suposta única tribo dos "verdadeiros humanos" (cada uma se considerava assim), que seriam os mais fortes e superiores, cada nova geração era submetida a ritos de passagem como provação do "merecimento" de pertencer à seu clã em exclusão de toda humanidade. Esses ritos escreviam literalmente na carne e na alma as marcas de pertencimento: mutilações, humilhações, várias provas de resistência à dor, provas de que não se é "frouxo" ao assassinar inimigos sem hesitação, adquirindo cicatrizes de guerra etc. Evidentemente, as novas gerações eram forçadas a se submeter porque não havia meio de satisfazerem suas necessidades fora da tribo, exceto se desejassem a solidão da natureza inclemente, vulneráveis às tribos e feras inimigas. E se se juntassem para criar uma outra tribo independente, eles seriam obrigados a recriar as mesmas provações dos ritos de passagem e as mesmas violências para com as outras tribos. Porque isso não depende só da vontade, mas das condições de existência materiais, ou seja, da capacidade humana de, com as forças produtivas existentes, transformar a natureza, a circunstâncias, as condições concretas das relações humanas. Eram as condições com que se deparavam que materialmente os obrigava a adotar todas essas coerções, se agrupando na forma social de tribos.

Assim como explicamos antes sobre o meio ambiente quando criticamos a ecologia, criticar as condições de existência das sociedades pré-capitalistas não quer dizer que defendamos que as tribos que ainda hoje existem não devam existir e nem que os que sentem atração pelo modo de vida delas deva "se reprimir". Na verdade, essas tribos, queiram ou não, há muito tempo não estão mais naquelas condições antigas (exceto, talvez, algumas, raríssimas, isoladas, na América do Sul e na Papua Nova Guiné). E seus mitos e ritos são recriados e modificados a cada geração conforme as condições em que elas se encontram e se reproduzem, que são hoje as da sociedade capitalista. É compreensível que, nesta sociedade onde a condição para sobreviver é se submeter à competição infernal da propriedade privada com a propriedade privada, os seres humanos dessas tribos remanescentes também busquem uma propriedade privada que garanta sua sobrevivência em exclusão de todos os demais humanos que competem igualmente pela sobrevivência. Então, para isso, o que geralmente tentam é fazer de seu passado um signo de propriedade a ser protegido pelo Estado (ou, como ocorre em alguns lugares do México, por suas próprias milícias). Porém, isso certamente nada tem de realmente libertário, nada tem a ver com superar a sociedade capitalista, porque é uma mera adição de uma propriedade privada a mais na competição generalizada que a condiciona. 

Apenas se transformarmos nossas condições de existência (o que pressupõe abolir a privação dessas condições, a propriedade privada, em escala mundial) de modo a superar as condições de existência da sociedade capitalista, os seres humanos podem se emancipar e transformar livremente a si mesmos, indo além da coação de ter que assumir papeis, funções e identidades pré-estabelecidas (etnia, raça, gênero, nação, emprego, família, cultura, classe etc), se associando conforme seus desejos para satisfazer livremente suas necessidades e capacidades.

humanaesfera, fevereiro de 2016

CURIOSIDADE FINAL: 



Este é o mais antigo exemplo encontrado de uma composição musical completa, o Epitáfio de SíciloA música, cuja melodia foi registrada junto com a letra, foi encontrada gravada em uma lápide, perto de Aidin, na Turquia (não muito longe de Éfeso). A descoberta foi datada de entre 200 aC e 100 dC.

Letra:

Enquanto viver, brilhe
Não te entristeças por nada
A vida dura um breve instante
E o tempo cobra seu tributo

A lápide continha o seguinte escrito: "Eu sou um túmulo, um ícone. Sícilo me pôs aqui como um símbolo eterno da lembrança imortal". 

A letra pode ser interpretada como expressando a ideia de vida como gratuidade, delicada, frágil e alegre, enquanto o tempo, que destruirá tudo cegamente (entropia),  confirma nela sua abundância supérflua e irretribuível.


NOTAS:

[1] Trata-se do texto Contra a metafísica da escassez, copiosidade prática.

[2] Sobre tudo isso, ver os livros Os Filósofos Pré-socráticos, de Gerd Bornheim, Da Natureza das Coisas, de Lucrécio, e O nascimento da física no texto de Lucrécio, de Michel Serres. E sobre uma interessante análise do fragmento de Anaximandro citado, ver A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos, de F. Nietzche, segundo o qual teria sido Heráclito de Éfeso o primeiro a romper com essa visão endividada da existência.

[3] Cf. O nascimento da física no texto de Lucrécio, de Michel Serres.

[4] Esse exemplo é exposto no texto A noção de dispêndio de Georges Bataille. Ver também Post-scriptum: contra a ecologia. 5) Georgescu-Roegen e o decrescimento económico, de João Bernardo

[5] Cf. Ética, de Baruch Espinosa e os dois volumes de Capitalismo e Esquizofrenia, de Deleuze e Guattari.

[6] Cf. os textos Propriedade privada, escassez e democracia,  assim como
Contra as recompensas e punições (contra a meritocracia, contra a coerção), também Abolição do trabalho e a questão do circuito produtivo global no comunismo, e, numa perspectiva prática, Contra a estratégia e Greve e produção livre.

[7] O texto Autonomia e cotidiano - Espinosa e o imperativo de Kant: ´Tratar os outros e a si mesmo como fins, jamais como meios.

[8] Sobre tudo isso, ver o texto Marx comunista individualista! (trechos sobre o indivíduo em Marx)

[9] Anteriormente, de uma forma descompromissada, provisória e muito rudimentar, tentamos desenvolver de um ponto de vista prático-cotidiano uma física que poderia ajudar a compreender a atuação, a atividade, o vir-a-ser, o surgimento. Nessa física, os conceitos de "inércia" e "força" são compreendidos imanentemente, na ideia de "engatilhamento de inércias qualitativamente heterogêneas" pelo qual os eventos, os surgimentos, os devires se dão. Em resumo, inércias desproporcionais (qualitativamente heterogêneas) interagem tangencialmente (engatilhamento) exibindo forças e, assim, eventos, novos seres, enquanto os conceitos de "energia", "troca de energia", "conservação de energia" e "trabalho" são secundários, por serem estimativas intelectuais sobre o já surgido, o já atuado. Quem tiver curiosidade, veja os textos Uma arkhé Acidental?Conceito qualitativo de energia, força e inércia e O engatilhamento das inércias está na raiz da força? 

[10] Cf. o livro O Reino e a Glória - Uma Genealogia Teológica da Economia e do Governo, de Giorgio Agamben.

[11] idem. Note que Carolus Linnaeus (Carlos Lineu, conhecido como o "pai da taxonomia moderna") ainda usava palavra "economia" nesse sentido teológico cristão. O seu livro  Oeconomia naturae [economia da natureza], publicado em 1749,  defende que a natureza é a execução do comando de deus, sendo que as catástrofes, a competição e os sofrimentos entre os seres vivos realiza os desígnios da providência (a ideia de que "Deus escreve certo por linhas tortas") ao compensar e equilibrar os nascimentos com as mortes, efetuando a ordem natural divino.

[12] Ver o  verbete "Economia" da Enciclopédia de 1772. 

[13] Ver o livro O capitalismo como religião, de Walter Benjamin.

[14] Sobre isso, ver a primeira e a segunda partes do texto A História que os ecologistas não querem contar, de Marilene Nunes. Também o livro Natureza e nazismo, de João Bernardo e a série de textos Post-scriptum: contra a ecologia, o lugar comum dos nossos dias, também de João Bernardo. 

[15] Ver os livros Ensaio sobre a dádiva, de Marcel Mauss, Os Argonautas do Pacífico Ocidental e Crime e Costume na Sociedade Selvagem, de Bronisław Malinowski, além de A Grande Transformação - as Origens da Nossa Época, de Karl Polanyi‎.

[16] Ver o livro A sociedade contra o Estado, de Pierre Clastres.

[17] Uma curiosidade sobre o "dom" pré-capitalista é a estória que originou a expressão "elefante branco". No Sião, os elefantes brancos eram raríssimos, e os cuidados requeridos eram tão custosos que só um rei poderoso poderia arcar com eles. Por isso eles eram considerados os maiores sinais de riqueza e poder, que nesse tempo significavam opulência dispendiosa, dádiva, beneficiência. Um rei que quisesse derrubar um aliado menos poderoso, ao invés de declarar guerra a ele, presenteava-o com um elefante branco. Se o aliado, para cuidar do elefante, perdesse suas riquezas, ele se arruinaria e perderia o poder. Mas se ele, para não perder suas riquezas, não cuidasse do elefante branco, isso seria considerado uma grave "desfeita" diante do presente dado, e então o rei, alegando estar "com a razão ao seu lado", poderia declarar guerra e destruir o antigo aliado. Outra ilustração da importância do "dom" nas sociedades pré-capitalista é o cavalo de Tróia.