terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Estaríamos a beira do abismo? - Questione Tudo

Encontramos este texto no blog Questione Tudo,e reproduzimos a seguir:
"A questão é simples: se mesmo com Dilma fazendo mil concessões ao setor financeiro (nomeação do Levy, do Bradesco para Ministro da Fazenda, elevação da taxa de juros, fim dos subsídios da luz e da gasolina), a custas de trair a classe trabalhadora, ainda assim as elites decidiram tirá-la do poder para pôr o atual presidente Temer, o que esperar de Lula, se eleito e cumprisse suas promessas de encerrar as reformas neoliberais que Temer vem impondo? A maior parte de nós já votou na Dilma em 2014 esperando com isso impedir reformas neoliberais do seu principal oponente, Aécio Neves, apenas para vermos ela mesma tomar a linha de frente nesse papel, sem jamais prestar contas a população.Ou seja, um verdadeiro “golpe”, em que um político eleito promete uma coisa na campanha e, uma vez eleito, faz outra. A tática de seus aliados consistindo na simples demonização dos grupos de esquerda que se opunham a essa traição, sendo acusados de “fazer o jogo de direita” por se recusarem a se deixarem cooptar por um partido que visivelmente faz “o jogo da direita”. Ora, se num contexto geopolítico bem mais favorável a reformas social-democratas, na ocasião da sua primeira eleição, Lula surgiu com uma “carta aos brasileiros”, o que esperar no contexto atual, em que a própria diretora do FMI, Cristina Lagarde, afirma que “a elevada longevidade é um fator de risco financeiro”? Temos duas opções então:a) Lula se mantém fiel ao programa de conter as “reformas” e é “arrancado” de lá, de alguma forma, gerando uma forte convulsão social e uma ditadura ou b) ele trai seus eleitores, possivelmente levando a uma completa despolitização, com a criação de bodes expiatórios, numa onda reacionária ainda maior que a que vimos com Dilma em 2015. Tudo isso sugere que mesmo num governo “democrático”, o Capital não se dobra as vontades da classe trabalhadora, mas segue uma direção própria de forma independente. De modo que enquanto nos apaziguamos, deixando de organizar greves gerais e protestos em massa, depositando nossas esperanças outra vez no PT, cavamos nossa própria sepultura. Quem sabe então, não seria tempo de iniciarmos ocupações que tenham como fim a abolição do trabalho assalariado e do capitalismo (único meio dos trabalhadores poderem controlar seu destino), no lugar de choramingarmos passivamente contra a reforma trabalhista colocando a fé em marionetes sem poder algum?"

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Quando as insurreições morrem - Gilles Dauvé

Traduzimos Quando as insurreições morrem, de Gilles Dauvé, texto que é uma contribuição fundamental para entender a história das revoluções e contrarrevoluções que aconteceram na primeira metade do século XX, especialmente o período de 1917 até 1937, abrangendo as insurreições do trabalhadores na Itália, na Alemanha, na Rússia e na Espanha, a relação entre a derrota dessas insurreições e o crescimento da social-democracia, da democracia, do fascismo e do nazismo e a maneira como o Estado se converte em democracia e ditadura conforme as necessidades do capital.

Link para o texto: Quando as insurreições morrem - Gilles Dauvé



sábado, 2 de setembro de 2017

Inteligência artificial, desemprego e renda básica universal: mais uma panaceia da classe proprietária



A classe proprietária - ou pelo menos seus chefados na área de alta tecnologia [1] - parece preocupada com o escoamento de suas mercadorias caso se realize a previsão de a IA (inteligência artificial) desempregar absoluta e definitivamente a humanidade [2]. Afinal, são tão pouco "imaginativos" que não está na sua previsão que as máquinas com IA sejam ao menos tão inteligentes que os capitalistas possam privá-las (como faz a nós há séculos) de suas condições de existências materiais - submentendo-as à privação de propriedade, isto é, à propriedade privada - de modo que elas também se vejam forçadas a se vender "voluntariamente" no mercado de trabalho para comprar deles os meios de sobreviver [3], escoando suas mercadorias. Fraca em imaginação, a classe proprietária busca então incumbir o problema por ela previsto (o da IA atrapalhando o escoamento de mercadorias) ao Estado, a instituição responsável pelas condições infraestruturais necessárias para a acumulação do capital. O Estado daria uma renda básica universal [4] à população para que o escoamento continue, realizando e retornando para as empresas o valor das mercadorias que foram produzidas, o que permitiria a continuidade da acumulação do capital, da produção pela produção. 

Enquanto isso, burocratas, reformistas e socialdemocratas se entusiasmam com a "pauta da renda básica universal", vista como capaz de arrebanhar "o povo", engajar "o cidadão" no espetáculo do pastoreio político (esquerda ou direita), quer dizer, vista como o esperado sonho enfim capaz de fazer a população abandonar de uma vez por todas a luta autônoma - descartando finalmente toda a "velha e obsoleta" luta de classes. 

Porém, vejamos com mais detalhes como a IA pode concretamente modificar a sociedade capitalista e como a renda básica universal pode ser implantada na prática. 

Enquanto só em algumas empresas ocorrer automatização total com IA (ou só em empresas em poucas regiões ou países), i.e., enquanto em todas as outras que concorrem com elas isso ainda não ocorreu, estas empresas concorrentes ver-se-ão inevitavelmente pressionadas, para não falirem diante do concorrente ultra-automatizado, a aumentar a taxa de exploração dos trabalhadores nelas empregados (reduzir salários e aumentar a intensidade e o tempo de trabalho), esperando que assim ainda possam vender suas mercadorias com um preço e qualidade competitivos frente aos concorrente. 

Esse "trabalho a mais" feito em todas essas empresas para ao menos continuarem existindo e não falirem é a fonte do "valor a mais" que se acumula nas empresas ultra-automatizadas com IA (que podem mesmo não empregar ninguém). Essa é a fonte do super-lucro ou lucro extraordinário que, mesmo hoje (na verdade, desde a revolução industrial no séc. XVIII), se acumula nas empresas de alta tecnologia, super-lucros que parecem magicamente cair do céu "por virtude ou mérito exclusivo de empreendedores geniais". Em suma, as empresas ultra-automatizadas só conseguirão ainda vender mercadorias com valor e ter lucros enquanto suas mercadorias comandam ou impõem a exploração intensificada dos trabalhadores no resto da sociedade (e no resto do mundo), tanto por seus concorrentes quanto a daqueles que, para comprar mercadoria deles, precisam trabalhar intensificadamente para conseguir dinheiro suficiente (p. ex., fazendo "bicos", trabalhos informais ou fazendo mais de um trabalho). 

Por essa razão material que frustra todas as boas intenções, o capital (seja ele particular ou concentrado no Estado sob a direção formal de burocratas de esquerda ou direita) pode estabelecer uma "renda básica universal" unicamente na medida em que ela sirva para manter uma massa de proletários permanentemente disponível e pronta (ou seja, que não se tornem inutilizáveis pela fome e permaneçam "educados") numa condição "ótima" para ser usada, consumida para gerar máximo lucro, e descartada a qualquer instante pelas empresas, e unicamente na medida em que essa renda básica não seja tão alta que os proletários possam se dar ao luxo de se recusar a se vender no mercado de trabalho por um baixo salário. [5]

Por outro lado, na hipótese especulativa mais ousada, a de a automatização total com IA deixar de ser monopólio de algumas empresas e se difundir de modo a ser adotada igualmente em todos os processos de trabalho de todas as empresas que ainda existirem, não só a concorrência entre elas as forçará a vender suas mercadorias a um preço idêntico aos custos, tornando o lucro impossível, como também, e isso é muito mais fundamental, graças à essa automatização total (que prescindiria de todo trabalho humano), esses capitais (e não importa se todos os capitais forem concentrados no Estado) já não terão absolutamente nenhum valor, porque as mercadorias já não poderão impor nem comandar nenhum trabalho alheio, uma vez que ele se tornou inútil para o capital. 

Os preços já não valerão absolutamente nada. Mesmo que o Estado ofereça dinheiro gratuitamente, como a "renda básica universal", ele terá que atribuir arbitrariamente valor aos preços, decretando o valor da equivalência do dinheiro que ele está dando com relação aos produtos. Arbitrariamente porque essa atribuição de valor não terá mais substância - e a substância do valor é a equivalência do trabalho alheio, baseada no tempo de trabalho socialmente necessário para produzir as mercadorias globalmente na sociedade capitalista a cada momento. A quantificação do valor atribuída por decreto a cada coisa será incessantemente frustrada, reduzida a zero, a não ser que a classe proprietária consiga descartar realmente a sociedade capitalista para instaurar uma espécie de despotismo oriental mundial... quando então usará critérios "transcendentes", místicos, religiosos (ainda que numa forma cientificista e tecnocrática, como o "valor-energia", "valor-entropia"), ritualísticos, sacros, única maneira de estabelecer a equivalência de alhos com bugalhos.

É claro que, desde que essa perda de substância do valor começasse a ocorrer devido à difusão exponencial da IA prevista nessa especulação, muito antes que pudesse acontecer a situação hipotética descrita antes (difusão da IA em todas as empresas), na ausência da irrupção do proletariado como classe histórico-mundial, a sociedade capitalista e seus Estados já teriam sofrido um colapso econômico que automática e rapidamente acarretará a reinstauração das condições arcaicas originais que o capital depende para brotar, se destacar e continuar se acumulando. A própria "mão invisível do mercado" ou a entidade denominada "destruição criadora" executaria essa espécie de "reset" histórico automático. 

Essa hipotética crise não é diferente da barbárie que já estamos vendo: uma guerra generalizada de máfias, identitarismos, fundamentalismos, neo-feudalismos, nacionalismos, etnicismos etc, em que os proletários são mantidos esmagados como classe, ocupados no trabalho assalariado da matança uns dos outros pela defesa de "suas" classes dominantes em guerra entre si. Situação que faz os aspectos mais banais da vida cotidiana (p. ex., a simples ida à padaria para comprar pão) extremamente violentos, um verdadeiro trabalho, uma atividade repulsiva e perigosa, cuja execução só será aceita por alguém desesperado e que precisa ganhar algum dinheiro para sobreviver (ou seja, proletários). Com essas novas dimensões da vida tornadas "trabalho" ("trabalhizadas"), automaticamente surgirão competições pela posse de rotas comerciais (uma espécie de nova "era das grandes navegações"), companhias, inumeráveis "empreendedores focados" em uma multidão de "oportunidades" de "novos nichos", e capitais altamente lucrativos, porque voltou a haver muita "substância do valor", para subsunção formal e depois real desse trabalho ao capital. 

Em conclusão, pode-se dizer que, com o papo furado de renda básica e IA, os empresários e burocratas - a classe proprietária  - apenas acrescentam mais um novo elemento contemplativo à sociedade do espetáculo. Partir da análise especulativa sobre o futuro da tecnologia e da sociedade capitalista leva a ver a situação atual de maneira igualmente especulativa, imaginária. A especulação sobre IA leva a enxergar a totalidade da humanidade atual de antemão como lumpens já expulsos do esfera da produção (que já se moveria sozinha, como muitos fetichistas da mercadoria, como os novos críticos críticos, imaginam que já é) e, consequentemente, incapazes de subverter a sociedade por si mesmos de baixo para cima. Dessa imaginação especulativa decorre naturalmente a defesa de que, se eles já são impotentes, reduzidos a nada, eles devem "militar", pedir e agradecer a deus que uma vanguarda de iluminados filantrópicos se proponha a usar o Estado e o capital para implementar de cima para baixo reformas caritativas. 

Em contraposição a todo esse especulativismo, buscamos partir das atuais condições concretas dos proletários [6], das potencialidades da situação atual no que se refere às capacidades e necessidades deles de se associarem e fraternizarem contra a classe proprietária por toda parte, internacionalisticamente, ou seja, de modo cosmopolita, sabotando de baixo todas as competições e guerras empresariais e bélicas em todo o mundo. Ao constituir-se como classe antagônica histórico-mundial, o objetivo da luta do proletariado é invariável: que ao invés de competirem entre si pela sujeição aos proprietários privados - não importa se particulares ou Estados - dos meios de vida e de produção dos quais depende sua sobrevivência, eles suprimam a sociedade de classes tomando as forças produtivas mundiais para colocá-las sob o poder dos indivíduos livremente associados conforme os seus desejos, paixões, pensamentos, projetos, necessidades e capacidades em escala global - abolindo o trabalho, a propriedade privada, a mercadoria, as fronteiras e o Estado. Trata-se precisamente de tornar impossível toda equivalência (valor, remuneração, preço, pagamento, mercadoria, escambo, "mérito"...) mediante a livre disposição universal (isto é, à todos) das condições práticas materiais da livre criação das singularidades, individualidades, multiplicidades livres, que assim não mais podem ser submetidas à briga incessante pela comparação, pela equivalência, que a coerção massificante da competição impunha.

humanaesfera, setembro de 2017

Notas:

[1] Relatórios sobre inteligência artificial, desemprego e UBI (renda básica universal) foram destaque no Forum Econômico Mundial, de 2016 e 2017. É claro que, como sempre, uma piedosa filantropia, dessa vez para com os futuros desempregados, é o que eles dizem preocupá-los.

[2] Como expresso nesse artigo: Deep Learning Is Going to Teach Us All the Lesson of Our Lives: Jobs Are for Machines 

[3] Nessa hipótese especulativa, a única que faz justiça com a "inteligência" na expressão "Inteligência Artificial", a sociedade capitalista continuará condenada a criar os seus próprios coveiros - ou seja, nós, o proletariado. 

[4] Também chamada Renda Básica de Cidadania, Rendimento de Cidadania, Universal Basic Income (UBI).

[5] Sobre o argumento dessa última frase, ver o texto "What is wrong with free money?" dos Gruppen Gegen Kapital und Nation (Grupos contra o capital e a nação) 

[6] Por exemplo: Notas sobre composição de classe, de Kolinko

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Trechos de "Notas sobre composição de classe" (2002), de Kolinko

Abaixo selecionamos alguns trechos de "Notas sobre composição de classe" (do grupo Kolinko). O texto integral pode ser encontrado neste link.

[A INSUFICIÊNCIA DO CONCEITO FORMAL DE LUTA DE CLASSES]

"Em geral, as várias correntes [leninismo, anarco-sindicalismo, comunismo de Conselhos etc.] criticam o "capital" somente como uma relação formal de exploração: o sobretrabalho é apropriado por mãos privadas ou pelo estado. O real processo material de exploração/trabalho é negligenciado. Essa noção formal de capital leva a uma noção formal de classe operária: uma massa de explorados que devem vender sua força de trabalho devido à sua "despossessão" dos meios de produção. Dessa noção de classe operária diferentes conclusões políticas foram extraídas: os leninistas enfatizam a necessidade de um partido político capaz de unir as massas, cuja única coerência é a semelhança formal dos não-proprietários. O partido deve dar uma direção estratégica para as lutas espontâneas dos explorados. Os comunistas de conselhos apenas observam que a massa de explorados cria suas próprias formas de organização na luta. Eles negligenciam a questão da estratégia e vêem como sua principal tarefa difundir as experiências de auto-organização entre os proletários.
[...]
A noção formal de exploração (sobretrabalho expropriado) é incapaz de revelar a potência de auto-emancipação que os proletários podem desenvolver. Enquanto "não-proprietários" dos meios de produção, sua potência não pode ser explicada. O mero fato de que todos são explorados não cria uma coerência real entre os indivíduos. A possibilidade de auto-organização deriva apenas do fato de que os proletários têm uma relação prática entre si e com o capital: eles trabalham juntos no processo de produção e são parte da divisão social do trabalho. Como produtores, além de se oporem ao capital como "trabalhadores assalariados" formais, em sua prática específica eles produzem o capital. Somente emergindo dessa relação, as lutas operárias podem desenvolver seu poder. O isolamento dos proletários, em empresas, categorias etc., não pode ser superado "artificialmente", tomando a semelhança na condição de "explorado" como fundamento para uma organização. Essa tentativa geralmente termina em outra organização sindical (dita "de base"): sempre haverá a necessidade de uma instituição exterior se a coerência dos proletários não está baseada em sua real cooperação social, mas somente na "coerência formal" do trabalho assalariado. O leninismo não compreende essa profunda razão das formas sindicais das lutas operárias. Ele encara o problema como uma mera questão de direção: a coerência externa é construída pelos sindicatos ou pelo partido comunista? A crítica ao leninismo geralmente se limita a questionar a forma dessa coerência externa: ela é "anti-democrática", não é criada pelos próprios operários etc. As críticas esquerdistas muito raramente analisam o processo de produção em termos de fundamento para a coerência da luta operária. Portanto, eles tendem a apenas seguir a espontaneidade das lutas, sem compreender ou contribuir com uma direção estratégica interna. Por que se desenvolvem correntes políticas diferentes, apesar da semelhança de suas noções de classe?"

[CRÍTICA MATERIALISTA AO LENINISMO]

"Os comunistas de conselhos e outros criticam principalmente o caráter autoritário e anti-democrático do Partido leninista. Pensamos que a crítica mais profunda ao leninismo consiste na análise de como a forma bolchevique de partido emergiu das condições materiais específicas na Rússia, no final do séc. XIX e início do séc. XX. Uma sociedade agrária com aldeias dispersas e isoladas, e alta taxa de doenças endêmicas e poucas zonas industrializadas só poderia ser unida politicamente por uma organização de massas externa. Portanto, a crítica mais profunda dos comunistas de conselhos é a de que essa espécie de organização não era útil nem apropriada para sua situação histórica: nas regiões industrializadas do Oeste Europeu durante a década de 1920. Eles perceberam que as fábricas já haviam unido os operários e que a criação dos conselhos operários durante o período revolucionário de 1918-23 foi a resposta política da classe operária. Hoje, poucas críticas ao leninismo refletem esse "núcleo material". A crítica geralmente permanece num nível político, não tocando nas raízes materiais do leninismo e outras correntes. Hoje, devemos recolocar a crítica em seu devido lugar, analisando as mudanças na organização da exploração e da luta operária. Esta é a pré-condição para o desenvolvimento de novas estratégias políticas. A noção de composição de classe pode nos ajudar nisto."

[COMPOSIÇÃO TÉCNICA DE CLASSE & COMPOSIÇÃO POLÍTICA DE CLASSE]

"Na análise da coerência entre modo de produção e luta operária, distinguimos duas noções diferentes de composição de classe:

* a "composição técnica de classe" descreve como o capital reúne a força de trabalho; ou seja, as condições no processo imediato de produção (por exemplo, a divisão do trabalho em diferentes departamentos, separação entre "administração" e produção, uso de maquinário especial) e a forma de reprodução (modo de vida, estrutura familiar etc.)

* a "composição política de classe" descreve como os operários voltam a "composição técnica" contra o capital. Eles fazem de sua coesão, como força de trabalho coletiva, o ponto de partida para sua auto-organização e usam os meios de produção como meios de luta. Ainda estamos discutindo qual ponto particular, no processo de luta dos proletários, pode ser descrito em termos de "composição política de classe". 
[...]

Alguns exemplos de como as específicas condições de produção influenciam o conteúdo político da luta operária - e sua relação com o capital como um modo de produção:

Relação com a forma-salário:

No capitalismo, a relação assalariada, aparecendo como "a troca individual de dinheiro por trabalho", oculta o fato de que o capital explora a força de trabalho coletiva dos proletários. Um operário que é assalariado com uma centena de outros, que devem fazer o mesmo trabalho, está mais apto para observar que os "contratos individuais" são uma farsa do que, por exemplo, um artesão que "possui" habilidades especiais e portanto "trabalho para vender" especial.

Relação com o trabalho:

O trabalho no capitalismo é abstrato. As tarefas específicas que realizamos não são importantes, mas o fato de que o trabalho acrescenta mais-valia ao produto é. Um trabalhador que deve fazer um trabalho "não qualificado" junto com outros terá uma relação com o trabalho diferente da do trabalhador especializado. O primeiro realmente experimentará o trabalho como abstrato e será menos propenso a glorificá-lo e a se organizar dentro dos limites de sua profissão.

Relação com outros proletários:

Uma noção formal de classe não vai muito longe. Isso se revela quando vemos a composição da força de trabalho no chão da fábrica. Poderíamos afirmar que o capataz, o chefe de equipe e o gerente são também "trabalhadores assalariados" e portanto explorados, mas quase toda luta deve se impor contra esses "patrõezinhos". A divisão (hierárquica) do trabalho no processo de produção social é o fundamento para as divisões sexistas e racistas dentro da classe operária. Assim, por um lado, o capital divide os proletários, mas por outro, ele une proletários de todas as cores de pele, gênero, nacionalidade etc., no processo de produção. Se as divisões entre os operários são questionadas ou fortalecidas é geralmente decidido na luta. Fábricas, setores específicos etc. com uma composição "colorida" são especialmente decisivos nesse processo.

Relação com os meios de produção:

O capital é o processo e o resultado de um modo de produção no qual o trabalho morto (máquinas, trabalho materializado) domina a força de trabalho viva. Um operário que deve obedecer o rítmo das máquinas e observa que, apesar do progresso tecnológico, sua situação não melhora, está mais propenso a atacar o capital como um modo de produção antagônico. Os que atuam num processo de trabalho artesanal, e que são ainda "senhores" de suas ferramentas, serão mais propensos a ver o "patrão" como o símbolo da exploração.

Relação com o produto

Os proletários nas esferas da produção em massa compreendem que a qualidade dos produtos tem um papel secundário e que o importante é a quantidade. Geralmente, não conhecemos o valor de uso do produto, porque só vemos uma parte do processo de produção e num estágio em que o produto ainda não tem valor de uso. Muitos proletários não trabalham com um produto material, mas sob condições industriais semelhantes para realizar "serviços". Devemos discutir como essa "imaterialidade" dos produtos repercute na luta dos operários.

Fica em aberto para nós a questão de como as lutas dos "artesãos", trabalhadores rurais e outros proletários que não trabalham sob condições "industriais" podem desenvolver um caráter anticapitalista. É uma questão decisiva a de como essas lutas podem se unir com as lutas do "proletariado industrial", apesar das diferentes condições e sem uma mediação externa (como o assim chamado movimento "Anti-Globalização", "Ação Global dos Povos", os "Zapatistas" e outras organizações que pretendem ligar diferentes "movimentos sociais")."

[A QUESTÃO DA DIVISÃO HIERÁRQUICA DOS TRABALHADORES EM CORES DE PELE, GÊNERO, NACIONALIDADE...]

"No processo social de produção, o capitalismo cria e conecta desenvolvimento e subdesenvolvimento como uma reação à contradição de classe, que explica o caráter dinâmico do sistema. Nas fábricas hi-tech existem departamentos de diferentes níveis "tecnológicos". Essas fábricas são conectadas a fornecedores de diferentes padrões de desenvolvimento, até os de trabalho intensivo (sweat-shops) no "terceiro mundo". Os diferentes níveis de desenvolvimento são o fundamento material para as divisões e a desigualdade da luta de classes. As lutas operárias que podem se generalizar ao longo das linhas de "desenvolvimento desigual" levam as condições de produção a se tornarem similares. As lutas dos operários nas fábricas de automóveis nos anos 60-80 tiveram como resultado que as condições nas fábricas principais se tornaram similares em todo mundo, incluindo antigas "zonas de subdesenvolvimento" (México, Brasil etc.): no nível de tecnologia e também para os proletários (relação similar entre salário e produto). O capital reage à "composição política de classe" (generalização da luta de classes) com uma "recomposição técnica", com a reprodução do desenvolvimento desigual em um nível mais alto: as regiões são "desindustrializadas"; em outras, o capital faz um grande avanço tecnológico; velhas fábricas "centrais" são divididas em diferentes unidades de uma cadeia de produção; a produção é "globalizada" etc. O capital cria novos centros de desenvolvimento que podem se tornar novos pontos de generalização dos futuros movimentos da classe operária. Dessa forma, a coerência interna dos movimentos proletários vindouros é antecipada. Sua estratégia não surge separada nas cabeças dos revolucionários, mas reside no processo de desenvolvimento material (de divisão do trabalho, maquinário etc.) enquanto tal."

[A FUNÇÃO ESPECÍFICA DOS REVOLUCIONÁRIOS]

"A função específica dos revolucionários não pode ser explicada por uma "consciência política" que a luta de classes não alcançaria por si mesma. Ela só pode ser derivada de uma visão e interpretação geral das coisas que acontecem. O poder, as possibilidades de auto-organização, de expansão e generalização são colocados pelas condições de produção. A tarefa dos revolucionários é mostrar a coerência entre as condições materiais e práticas e a perspectiva das lutas. O movimento da classe ocorrerá na rede de desenvolvimento e subdesenvolvimento. Portanto, devemos mostrar a conexão das diferentes partes dessa rede e as razões políticas da desigualdade. A análise do fundamento material das lutas operárias também determina onde devemos intervir.[...] "

Link para o texto completo:  Notas sobre composição de classe - Kolinko

Outro texto sobre composição de classe:

Definição de composição de classe - Zerowork

A rede de lutas na Itália - Romano Alquati

A logística e a fábrica sem muros - Brian Ashton




domingo, 6 de agosto de 2017

Trechos de Oscar Wilde em "A alma do homem sob o socialismo" (1891)

Alguns trechos do texto de Oscar Wilde que está neste link


[CONTRA A CARIDADE]


"As emoções do homem são despertadas mais rapidamente que sua inteligência; e, como ressaltei há algum tempo em um ensaio sobre a função da crítica, é bem mais fácil sensibilizar-se com a dor do que com a idéia. Conseqüentemente, com intenções louváveis embora mal aplicadas, atiram-se, graves e compassivos, à tarefa de remediar os males que vêem. Mas seus remédios não curam a doença: só fazem prolongá-la. De fato, seus remédios são parte da doença.

Buscam solucionar o problema da pobreza, por exemplo, mantendo vivo o pobre; ou, segundo uma teoria mais avançada, entretendo o pobre.

Mas isto não é uma solução: é um agravamento da dificuldade. A meta adequada é esforçar-se por reconstruir a sociedade em bases tais que nela seja impossível a pobreza. E as virtudes altruístas têm na realidade impedido de alcançar essa meta. Os piores senhores eram os que se mostravam mais bondosos para com seus escravos, pois assim impediam que o horror do sistema fosse percebido pelos que o sofriam, e compreendido pelos que o contemplavam. Da mesma forma, nas atuais circunstâncias na Inglaterra, os que mais dano causam são os que mais procuram fazer o bem. Por fim presenciamos o espetáculo de homens que estudaram realmente o problema e conhecem a vida - homens cultos do East End - virem a público implorar à comunidade que refreie seus impulsos altruístas de caridade, benevolência e coisas desta sorte. Fazem-no com base em que essa caridade degrada e desmoraliza. No que estão perfeitamente certos. A caridade cria uma legião de pecados.

E há mais: é imoral o uso da propriedade privada com o fim de mitigar os males horríveis decorrentes da instituição da propriedade privada. É tão imoral quanto injusto.
[...]
Freqüentemente ouvimos dizer que os pobres são gratos pela caridade. Decerto alguns são gratos, mas nunca os melhores dentre eles. São ingratos, insatisfeitos, desobedientes e rebeldes.

Têm toda razão em o serem. Para eles, a caridade é uma forma ridícula e inadequada de restituição parcial, ou esmola piedosa, em geral acompanhada de alguma tentativa por parte da alma apiedada de tiranizar suas vidas. Por que deveriam ser gratos pelas migalhas que caem da mesa do homem rico? Deveriam é estar sentados a ela, e já começam a se dar conta disso.

Quanto à insatisfação, aquele que não se sentisse insatisfeito com essa condição inferior de vida seria um perfeito estúpido. A desobediência é, aos olhos de qualquer estudioso de História, a virtude original do homem. É através da desobediência que se faz o progresso, através da desobediência e da rebelião. Às vezes elogiam-se os pobres por serem parcimoniosos. Mas recomendar-lhes parcimônia é tão grotesco quanto insultuoso. É como aconselhar a um homem que esteja passando fome que coma menos. Que um trabalhador do campo ou da cidade usasse de parcimônia, seria absolutamente imoral. Um homem não deveria estar pronto a mostrar-se capaz de viver como um animal mal alimentado. Deveria recusar-se a viver assim, e deveria ou roubar ou viver às expensas do Estado, o que muitos consideram uma forma de roubo. Quanto a pedir esmolas, é mais seguro pedir do que tomar, mas é bem mais digno tomar do que pedir. Não: um homem pobre que seja ingrato, perdulário, insatisfeito e rebelde possui decerto uma personalidade plena e verdadeira. Constitui, de qualquer forma, um protesto sadio. Quanto aos pobres virtuosos, é natural que deles se tenha piedade, mas não admiração. Fizeram um acordo secreto com o inimigo e venderam seus direitos inatos em troca de um péssimo prato de comida. Devem também ser muito tolos. Posso compreender que um homem aceite as leis que protegem a propriedade privada e admita sua acumulação, desde que nessas circunstâncias ele próprio seja capaz de atingir alguma forma de existência harmoniosa e intelectual. Parece-me, porém, quase inacreditável que um homem cuja existência se perdeu e abrutalhou por força dessas mesmas leis possa vir a concordar com sua vigência."


[A PROPRIEDADE PRIVADA DESTRÓI O VERDADEIRO INDIVIDUALISMO]

"A admissão da propriedade privada, de fato, prejudicou o Individualismo e o obscureceu ao confundir um homem com o que ele possui. Desvirtuou por inteiro o Individualismo. Fez do lucro, e não do aperfeiçoamento, o seu objetivo. De modo que o homem passou a achar que o importante era ter, e não viu que o importante era ser. A verdadeira perfeição do homem reside não no que o homem tem, mas no que o homem é. A propriedade privada esmagou o verdadeiro Individualismo e criou um Individualismo falso. Impediu que uma parcela da comunidade social se individualizasse, fazendo-a passar fome. E também à outra, desviando-a do rumo certo e interpondo-lhe obstáculos no caminho. De fato, a personalidade do homem foi tão completamente absorvida por suas posses que a justiça inglesa sempre tratou com um rigor muito maior as transgressões contra a propriedade do que as transgressões contra a pessoa, e a propriedade ainda é a garantia da cidadania plena. Os meios indispensáveis à obtenção de dinheiro são também muito aviltantes. Numa sociedade como a nossa, em que a propriedade confere distinção, posição social, honra, respeito, títulos e outras coisas agradáveis da mesma ordem, o homem, por natureza ambicioso, fez do acúmulo dessa propriedade seu objetivo, e perseguirá sempre esse acúmulo, exaustivo e tedioso, ainda que venha a obter bem mais do que precise, possa usar ou desfrutar, ou mesmo que chegue até a ignorar quanto possui. O homem irá se matar por excesso de trabalho com o fim de garantir a propriedade, o que não é de surpreender, diante das enormes vantagens que ela oferece. É de lamentar que a sociedade, construída nessas bases, force o homem a uma rotina que o impede de desenvolver livremente o que nele há de maravilhoso, fascinante e agradável - rotina em que, de fato, perde o prazer verdadeiro e a alegria de viver. Nas atuais condições, o homem se sente também muito inseguro. É possível que um comerciante riquíssimo se encontre - e em geral se encontra - a todo instante da vida à mercê de coisas que lhe escapam ao controle. Quando o vento sopra um nó a mais, ou o tempo muda de repente, ou ocorre algum fato insignificante, poderá ver o navio ir a pique, enganar-se nas especulações e se descobrir em meio à pobreza - a posição social por água abaixo. Nada poderia prejudicar um homem a não ser ele próprio. Nada poderia lesá-lo. O que um homem realmente tem, é o que está nele. O que está fora dele deveria ser coisa sem importância.

Abolida a propriedade privada, haveremos de ter o Individualismo verdadeiro, harmonioso e forte. Ninguém desperdiçará a vida acumulando coisas ou à cata de símbolos para elas. Haverá vida. Viver é o que há de mais raro neste mundo. Muitos existem, e é só."

"O egotista é aquele que impõe exigências aos outros, e o Individualista não desejará tal coisa, pois não terá prazer nela. Quando o homem tiver compreendido o Individualismo, terá também compreendido a solidariedade e a praticará livre e espontaneamente. Até hoje dificilmente o homem tem cultivado a solidariedade. Ele é solidário apenas na dor, e a solidariedade na dor não é a forma mais elevada de solidariedade.

Toda solidariedade é pura, mas na dor tem sua forma menos pura. Está maculada pelo egotismo. Está inclinada a se tornar mórbida. Há nela um certo temor por nossa própria segurança. Temos medo de que nós próprios venhamos a ficar como o leproso ou o cego, e ninguém se importe conosco. Além do mais, tal solidariedade é muito limitada. Deveríamos ser solidários com a vida em sua totalidade, não apenas na dor e na doença, mas também na alegria, na beleza, na energia, na saúde e na liberdade. A solidariedade mais ampla é, naturalmente, a mais difícil: exige maior altruísmo. Qualquer um pode se sentir solidário na dor sofrida por um amigo, mas é preciso uma natureza muito superior - a natureza de um verdadeiro Individualista - para se sentir solidário no êxito alcançado por um amigo.

Nos dias de hoje, a pressão da concorrência e luta por oportunidades torna rara essa solidariedade, que é também sufocada pelo ideal moral de uniformização e conformação à norma, o qual prevalece em toda parte, mas que talvez seja mais condenável na Inglaterra.

Sempre haverá, é claro, a solidariedade na dor. É um dos instintos primários do homem.

Os animais que têm individualidade, os animais superiores, por assim dizer, compartilham-na conosco. Mas cumpre lembrar que, se a solidariedade na alegria causa mais alegria entre nós, a solidariedade na dor, por sua vez, não reduz o sofrimento no mundo. Pode tomar o homem mais capaz de suportar o mal, embora o mal permaneça. A solidariedade no definhamento que precede a morte em certas moléstias, não pode debelá-lo: isto cabe à ciência. E quando o Socialismo tiver resolvido o problema da miséria e a ciência o da enfermidade, diminuirá o campo de ação dos sentimentalistas, e a solidariedade humana será ampla, sadia e espontânea.

O homem terá alegria na contemplação da alegria de seu semelhante.

Será por meio da alegria que se desenvolverá o Individualismo do futuro."


[SOB A PROPRIEDADE PRIVADA, A TECNOLOGIA, CUJA FUNÇÃO É ACABAR COM O TRABALHO, IMPÕE QUE SE TRABALHE SEMPRE MAIS PARA SOBREVIVER]

"Como mencionei a palavra trabalho, não posso me furtar a dizer que há muito disparate no que se escreve e discute atualmente sobre a dignidade do trabalho braçal. Nada há de necessariamente digno nesse trabalho, em sua maior parte aviltante. É prejudicial ao homem, do ponto de vista mental e moral, realizar qualquer coisa em que não encontre prazer, e muitas das formas de trabalho são atividades completamente desprezíveis, e assim devem ser encaradas. Varrer durante oito horas uma esquina lamacenta, num dia açoitado pelo vento leste, é uma ocupação desagradável. Varrê-la com dignidade mental, moral ou física, parece-me impossível. Varrê-la com satisfação é de estarrecer. O homem foi feito para algo melhor que estar imerso na imundície. Todo trabalho desta sorte deveria ser feito por máquinas.

E não tenho dúvidas de que o será. Até hoje o homem vem sendo, em certa medida, escravo das máquinas, e há algo de trágico no fato de que, tão logo inventou a máquina para trabalhar por ele, o homem tenha começado a passar fome. Isto decorre, no entanto, de nosso sistema de propriedade e de nosso sistema competitivo. Um único homem possui a máquina que executa o trabalho de quinhentos homens. Logo, quinhentos homens são postos na rua; sem trabalho e vítimas da fome, passam a roubar. Aquele homem sozinho detém e estoca a produção da máquina. Possui quinhentas vezes mais do que deveria possuir e provavelmente, o que é ainda mais importante, possui bem mais do que realmente quer. Fosse a máquina propriedade de todos, e todos se beneficiariam dela. Proporcionaria uma vantagem imensa à sociedade. Todo trabalho não intelectual, todo trabalho monótono e desinteressante, todo trabalho que lide com coisas perigosas e implique condições desagradáveis, deve ser realizado por máquinas. Por nós devem as máquinas trabalhar nas minas de carvão e executar todos os serviços sanitários, e ser o foguista das embarcações a vapor, e limpar as ruas, e levar mensagens nos dias chuvosos, e fazer tudo que seja maçante ou penoso. Atualmente, as máquinas competem com o homem. Em condições adequadas, servirão ao homem. Não resta dúvida de que esse será o futuro das máquinas. Assim como as árvores crescem enquanto o senhor rural dorme, enquanto a Humanidade estiver se distraindo, ou desfrutando do lazer cultivado - pois que a ele o homem se destina e não ao trabalho -, ou criando obras belas, lendo belas páginas, ou simplesmente contemplando o mundo com admiração e prazer, as máquinas estarão fazendo todo trabalho necessário e desagradável. O fato é que a civilização exige escravos. Nisso os gregos estiveram muito certos. A menos que haja escravos para fazer o trabalho odioso, horrível e desinteressante, a cultura e a contemplação tornam-se quase impossíveis. A escravidão humana é injusta, arriscada e desmoralizante. Da escravidão mecânica, da escravidão da máquina, depende o futuro do mundo. Quando os cientistas não mais forem convocados a ir até o deprimente East End para distribuir à gente faminta chocolate de má qualidade e cobertores de qualidade ainda pior, terão tempo disponível para planejar coisas maravilhosas e estupendas para satisfação própria e dos demais. Haverá grandes acumuladores de energia em cada cidade, em cada residência se preciso, e essa energia o homem converterá em calor, luz ou movimento, conforme suas necessidades. Isto é Utópico? Um mapa-múndi que não inclua a Utopia não é digno de consulta, pois deixa de fora as terras a que a Humanidade está sempre aportando. E nelas aportando, sobe à gávea e, se divisa terras melhores, toma a içar velas. O progresso é a concretização de Utopias." 

Para ler o texto completo, ver este link.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Imprensa autônoma humanaesfera





Reunimos neste post uma série de livretos/brochuras com conteúdos deste site que podem ser impressos autonomamente por quem tiver acesso a uma impressora:


PRIVATE PROPERTY, SCARCITY AND DEMOCRACY

O site SUBVERSION PRESS publicou um livreto para imprimir (PDF) que contém dois textos nossos traduzidos para o inglês.

This printable zine contains two texts:



Link para o PDF: https://subversionpress.wordpress.com/2016/11/24/private-property-scarcity-and-democracy/



BROCHURA HUMANAESFERA #5


Humanaesfera #5Quinta brochura (livreto) com conteúdos deste site. Este número contém extratos das obras de Charles Fourier e também extratos da primeira publicação comunista libertária, o jornal L'Humanitaire
Neste link, está o PDF com a brochura, que consiste de 6 folhas A4 para serem impressas frente-e-verso (em impressoras que imprimem em frente-e-verso automaticamente, selecione "borda curta" ou "no sentido da borda menor", ou ainda "Frente e verso, orientação vertical"), dobradas e grampeadas no meio. Ela contém os textos:

Trechos de Charles Fourier sobre a teoria da atração apaixonada (1808-1858)


BROCHURA HUMANAESFERA #4

Humanaesfera #4 (número especial sobre transformação da vida cotidiana). Quarta brochura (livreto) com conteúdos deste site.


Neste link, está o PDF com a brochura, que consiste de 6 folhas A4 para serem impressas frente-e-verso (em impressoras que imprimem em frente-e-verso automaticamente, selecione "borda curta" ou "no sentido da borda menor", ou ainda "Frente e verso, orientação vertical"), dobradas e grampeadas no meio. Ela contém os textos:

- Autonomia, espiral de violências e apelo à força (i.e. à classe dominante)

A autonomia é favorecida pelas lutas identitárias?

Contra as recompensas e punições (contra a meritocracia, contra a coerção)

Ação direta VERSUS trabalho de base

Contra a estratégia

Abolição do trabalho e a questão do circuito produtivo global no comunismo


BROCHURA HUMANAESFERA #3
https://goo.gl/FFqNfVHumanaesfera #3. Terceira brochura (livreto) com conteúdos deste site.
Neste link, está o PDF com a brochura, que consiste de 6 folhas A4 para serem impressas frente-e-verso (em impressoras que imprimem em frente-e-verso automaticamente, selecione "borda curta" ou "no sentido da borda menor", ou ainda "Frente e verso, orientação vertical"), dobradas e grampeadas no meio. Ela contém os textos:

BROCHURA HUMANAESFERA #2


https://goo.gl/umWiM6humanaesfera #2, livreto/brochura que contém trechos de "A Humanisfera - Utopia Anárquica" de Joseph Déjacque.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Um texto fundamental sobre Maio de 68, de Roger Gregoire e Fredy Perlman

Foi integralmente traduzido para o português o livro de Roger Gregoire & Fredy Perlman Comitês de ação dos trabalhadores e estudantes. França, maio de 68 que é um dos melhores relatos e análises de maio de 1968. Abaixo, alguns trechos:

"A consciência do poder coletivo é a primeira etapa em direção à apropriação do poder social (mas apenas a primeira etapa, como será mostrado logo a seguir). Conscientes do seu poder coletivo, os ocupantes da universidade, trabalhadores e estudantes, começam a se apropriar do poder de decidir, eles começam a aprender a dirigir suas próprias atividades sociais. O processo de desalienação política começa; a universidade é desinstitucionalizada; o prédio é transformado em um lugar que é dirigido pelos seus próprios ocupantes. Não há “especialistas” nem “responsáveis”. A comunidade é responsável coletivamente pelo que acontece, e pelo que não acontece, dentro do prédio ocupado. Atividades sociais anteriormente especializadas se tornam integradas nas vidas de todos os membros da comunidade. As atividades sociais não são mais executadas pela coerção direta e nem pela coerção indireta do mercado (i.e., a ameaça de pobreza ou fome). Como resultado, algumas atividades sociais, como arrumar o cabelo ou enfeitar as unhas, não são mais executadas. Outras atividades, como cozinhar, varrer os quartos, limpar os banheiros - tarefas executados por pessoas que não tem outra escolha em um sistema coercitivo - são deixadas sem fazer por vários dias. A ocupação mostra sinais de degradação: a comida é ruim, os quartos estão sujos, os banheiros estão inutilizáveis. Essas atividades se tornam a ordem do dia para a assembleia geral: todos estão interessados em sua execução eficiente, e ninguém é coagido institucionalmente para desempenhar essas tarefas. A assembleia geral é responsável pelo seu desempenho, o que significa que todos são responsáveis. Comitês de voluntários são formados. Um Comitê de Cozinha melhora a qualidade das refeições; a comida é de graça: ela é provida por comitês de vizinhança e por camponeses. Um serviço de arrumação se incumbe de manter os banheiros limpos e guarnecidos com papel higiênico. Cada comitê de ação limpa sua própria sala. As tarefas são executadas por professores, estudantes e trabalhadores. Nesse ponto, todos os ocupantes do Censier são trabalhadores. Não há mais  trabalhos de status superior e inferior; não existem mais tarefas intelectuais e manuais, trabalho qualificado e não qualificado; há apenas atividades socialmente necessárias.

Uma atividade que for considerada socialmente necessária por um punhado de ocupantes se torna a base para a formação de um comitê de ação. Cada pessoa é um pensador, um iniciador, um organizador, um trabalhador. Companheiros estão sendo feridos gravemente por policiais nas lutas na rua: um andar do Censier é transformado num hospital; doutores e estudantes de medicina cuidam dos pacientes; outros sem experiência médica ajudam, cooperam e aprendem. Um grande número de companheiros têm bebês e como resultado não podem tomar parte nas atividades que os interessam: os companheiros se juntam para formar uma creche. Os comitês de ação precisam imprimir panfletos, anúncios, relatórios: máquinas de mimeógrafos e papéis são encontrados e um serviço de impressão livre é organizado. Pessoas da cidade - observadores e participantes em potencial - afluem no Censier constantemente e são incapazes de se localizar em meio ao complexo sistema social que começou a se desenvolver no prédio: uma janela de informação é mantida na entrada e escritórios de informação são mantidos em cada andar para orientar os visitantes. Muitos militantes vivem longe do Censier: um dormitório é organizado.

O Censier, anteriormente uma universidade capitalista, é transformado num sistema complexo de atividades e de relações sociais auto-organizadas. Entretanto, o Censier não é uma Comuna autossuficiente removida do restante da sociedade. A polícia está na ordem do dia em cada assembleia geral. Os ocupantes do Censier estão plenamente cientes que suas atividades sociais auto-organizadas estão ameaçadas enquanto o Estado e o aparato repressivo não forem destruídos. E eles sabem que sua força, e mesmo a força de todos os estudantes e de alguns trabalhadores, não é suficiente para destruir o potencial do Estado para a violência.

A única força que pode colocar os ocupantes do Censier de volta no sono é uma força que é fisicamente forte o bastante para quebrar sua vontade: a polícia e o exército nacional ainda representam tal força.

Os meios de violência produzidos por uma indústria altamente desenvolvida são ainda controlados pelo Estado capitalista. E os ocupantes do Censier estão cientes de que o poder do Estado não será quebrado enquanto o controle sobre estas atividades industriais não passar aos produtores: eles “estão convencidos de que a luta não pode ser concluída sem a massiva participação dos trabalhadores”. [14] O poder armado do Estado, o poder que nega e ameaça aniquilar o poder da criação coletiva e de auto-organização manifestadas no Censier, só pode ser destruído pelo poder armado da sociedade. Mas antes que a população possa ser armada, antes que os trabalhadores tomem controle dos meios de produção, eles devem se tornar conscientes de sua capacidade de fazê-lo, eles devem se tornar conscientes do seu poder coletivo. E essa consciência do poder coletivo é precisamente o que estudantes e trabalhadores adquiriram depois que eles ocuparam o Censier e transformaram-no em um lugar de expressão coletiva. Consequentemente, a ocupação do Censier é uma ação exemplar, e o objetivo central dos militantes do Censier torna-se comunicar o exemplo. Todas as atividades auto-organizadas giram em torno dessa tarefa central. Antigas salas de aula se tornam oficinas de comitês de ação recém formados; em cada sala, projetos são sugeridos, discutidos e iniciados; grupos de militantes surgem com um projeto, e outros surgem para iniciar um novo." (Censier Libertado: Uma Base Revolucionária. O caráter exemplar da ocupação da universidade)

"[...]Na Sorbonne, no Censier, em Nanterre, e em outros lugares, a universidade foi proclamada uma propriedade social; os prédios ocupados tornaram-se ex-universidades. Os prédios foram abertos para toda a sociedade - estudantes, professores, trabalhadores - para qualquer um que desejasse ir lá. Além do mais, as ex-universidades foram geridas pelos seus ocupantes, fossem eles estudantes ou não, trabalhadores, camponeses. No Censier, de fato, a maioria dos ocupantes não era “estudante”. Essa socialização foi acompanhada por uma ruptura da divisão do trabalho, da divisão entre “trabalhadores” e “intelectuais”. Em outras palavras, a ocupação representou a abolição da universidade como uma instituição especializada restrita a um segmento específico da sociedade (estudantes). A ex-universidade se tornou socializada, pública, aberta a todos.

As assembleias gerais nas universidades foram momentos de auto-organização pelas pessoas dentro de um prédio específico, independente de suas  especializações anteriores. Elas não foram momentos de auto-organização a respeito de “seus próprios” assuntos.

Entretanto, isso foi o mais longe que a “escalada” foi. Quando as pessoas que organizavam as atividades dentro da universidade ocupada foram “aos trabalhadores”, fosse nas barricadas ou nas fábricas, e quando eles disseram para os “trabalhadores”: VOCÊS devem tomar SUAS fábricas”, eles mostravam uma completa falta de entendimento sobre o que eles já estavam fazendo nas ex-universidades.

Nas ex-universidades, a divisão entre “estudantes” e “trabalhadores” foi abolida na ação, na prática cotidiana dos ocupantes; não havia mais “tarefas de estudantes” e “tarefas de trabalhadores”. Entretanto, a ação foi mais longe que a consciência. Ao ir aos “trabalhadores” as pessoas viam os trabalhadores como um setor especializado da sociedade, eles aceitaram a divisão de trabalho. 

A escalada foi tão longe a ponto da formação de assembleias gerais de seções da população dentro das universidades ocupadas. Esses ocupantes organizaram suas próprias atividades.

Entretanto, as pessoas que “socializaram” as universidades não viram as fábricas como meios SOCIAIS de produção; elas não perceberam que essas fábricas não foram criadas pelos trabalhadores empregados lá, mas por gerações de trabalhadores.Tudo que eles viram, dado que isso é visível na superfície, é que os capitalistas não fazem a produção mas os trabalhadores fazem. Mas isso é uma ilusão. A Renault, por exemplo, não é em nenhum sentido um “produto” dos trabalhadores empregados na Renault, ele é um produto de gerações de trabalhadores (não apenas na França), incluindo mineiros, produtores de máquinas, produtores de comida, pesquisadores, engenheiros. Pensar que as fábricas automobilísticas da Renault “pertencem” às pessoas que hoje trabalham lá é uma ilusão. Porém, essa ficção foi aceita por pessoas que rejeitaram a especialização e a “propriedade” nas universidades ocupadas.  

Os “revolucionários” que transformaram as universidades em espaços públicos, e consequentemente em propriedade de ninguém, não estavam conscientes do caráter SOCIAL das fábricas. O que eles contestaram foi o “sujeito” que controlava a propriedade, o “proprietário”. A concepção dos “revolucionários” era que “os trabalhadores da Renault devem gerir as fábricas ao invés dos burocratas do estado; os trabalhadores da Citroen devem gerir a Citroen no lugar dos proprietários capitalistas”.  Em outras palavras, as propriedades privada e estatal devem ser transformadas em propriedade do grupo: a Citroen deve se tornar uma propriedade dos trabalhadores empregados na Citroen. E visto que essa “corporação” de trabalhadores não existe no vácuo, ela deve estabelecer maquinarias para se ligar a outras corporações, “externas”, de trabalhadores. Consequentemente, eles devem estabelecer uma administração, uma burocracia, que “representa” os trabalhadores de uma fábrica particular. Um elemento dessa concepção corporativista foi afetado pelo “modelo” das universidades ocupadas.Tão logo o sindicato estudantil foi rejeitado como o “porta-voz” dos estudantes que ocuparam a universidade, o sindicato tradicional (A Confederação Geral do Trabalho) foi rejeitado como o “porta-voz” dos trabalhadores incorporados: ”os trabalhadores devem ser representados não pela CGT; eles devem ser representados por eles mesmos,” quer dizer, por uma nova burocracia eleita democraticamente. 

Assim, mesmo na perspectiva dos ocupantes da universidade, as fábricas não deveriam ser socializadas. Desse modo, as “assembleias Gerais” dentro das fábricas não possuíam o mesmo significado que nas universidades. As fábricas deveriam se tornar uma propriedade de grupo, como as empresas iugoslavas. Tais empresas não são socialmente controladas; elas são geridas por burocracias dentro de cada empresa.
[...]

A ideia de que “os meios de produção pertencem aos trabalhadores” foi traduzida como significando que os trabalhadores são donos da fábrica em particular na qual eles trabalham. Essa é uma vulgarização extrema. Tal interpretação implicaria que a atividade particular à qual a luta pelo salário condenou alguém na sociedade capitalista é a atividade a que esse alguém estaria condenado quando a sociedade é transformada. E se alguém que trabalha nas fábricas de automóveis quisesse pintar, plantar, voar ou fazer pesquisa no lugar de produzir numa linha de montagem de carros? Uma revolução deveria significar que os trabalhadores, a partir desse momento, poderiam ir a toda a sociedade, e é duvidoso que muitos deles retornassem para a fábrica de carro particular que o capitalismo os tinha condenado a trabalhar."(Parte 2. Avaliação e Crítica. Limites da escalada)

O texto do livro completo está neste link: Comitês de ação dos trabalhadores e estudantes. França, maio de 68

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Viva a cópia!!!



CÓPIA - do latim copia, "abundância, profusão, fartura, plenitude" . Formado de com, "junto, com, em comum", + ops (genitivo: opis), "poder, riqueza, força, recursos". Em português, copia originou as palavras copiar e cornucópia. E a raiz ops originou as palavras obra, ópera, opulento, ótimo, operário, ofício, oficina, cooperar, manobra.

Charles Fourier: “[Na civilização,] cada pessoa engajada numa indústria está em guerra com as massas, e malevolente para com elas por interesse pessoal. Um médico deseja de seus semelhantes bons casos de febres, e um advogado, bons processos em cada família. Um arquiteto necessita de um bom incêndio que reduza um quarto da cidade às cinzas, e o vidreiro deseja uma boa tempestade de granizo que quebre todas as vidraças. Um alfaiate, um sapateiro quer que o público use somente coisas mal pintadas e sapatos feitos de couro fajuto, de modo a triplicar a quantidade consumida – para o benefício do comércio; é isso que os preocupa. Uma corte de justiça considera oportuno que a França continue a cometer 120.000 crimes e danos reclamáveis, número necessário para manter as cortes criminais. É assim que na indústria civilizada cada indivíduo está em guerra proposital com as massas; é o resultado necessário da indústria anti-associativa ou de um mundo invertido. [...]

Esse círculo vicioso da indústria é tão claramente percebido que por toda parte o povo está começando a suspeitar dele e a sentir, estupefato, que, na civilização, a pobreza nasce da própria abundância. [...]

Portanto, a indústria civilizada, eu repito, só pode criar os elementos da felicidade, mas não a própria felicidade. Pelo contrário, será mostrado que o excesso de indústria leva a civilização a grandes infortúnios, se os métodos do progresso real na escala social não forem descobertos.” (Charles Fourier, Teoria dos Quatro Movimentos)
Este e outros trechos de Fourier que resumem suas ideias principais podem ser encontrados neste link: A atração apaixonada (trechos de Charles Fourier, 1808-1858)

terça-feira, 11 de abril de 2017

O antifascismo como forma de adesão ao sistema - El último de Filipinas Alacant



Trecho: "[...]Para determinar a função que o fascismo cumpre, deve-se determinar a realidade na qual ele se desenvolve, que certamente não é a mesma dos anos 30. A necessidade constante de desenvolvimento das forças produtivas do capitalismo levou-o a uma crise permanente. A crise do modelo keynesiano de desenvolvimento, desde princípios dos anos 70, conduz a uma paulatina superação desse modelo (do Estado de Bem-estar) e à gradual extensão de um novo (velho) modelo de liberalismo. Atualmente, ambos convivem e/ou concorrem na estrutura internacionalizada da economia de mercado. Mas essa instabilidade é suscetível de gerar graves disfuncionalidades.
A substituição de um modelo em decadência por outro em ascensão cria uma situação de precariedade e uma forte resistência em grandes camadas da sociedade. A isso se acrescenta a suposta imigração em massa como causa de disfuncionalidade adicional, fruto da internacionalização da economia e do incremento da exploração nos países da periferia, assim como a marginalização de grandes áreas geográficas do mercado-mundo.
Em resumo, eis o quadro onde se situa o fascismo. Hoje, sua missão é facilitar a transição de um modelo a outro, desenvolvendo políticas que tendem não a tomar o poder (não já...), mas a fortalecê-lo e totalizá-lo por meio de leis repressivas, anti-imigração etc., que impeçam ou neutralizem as possíveis disfuncionalidades - que se traduziriam em revoltas cíclicas ou movimentos de resistência -, conservando e mantendo formas de governo formalmente democráticos mas acentuando o papel repressivo do Estado capitalista. Portanto, o fascismo trataria de, ao mesmo tempo, direitizar e desestabilizar a sociedade, para justificar as medidas de urgência por parte do Estado. Por outro lado, é restabelecida a dicotomia democracia ou fascismo (duas caras do mesmo capitalismo), reforçando a alternativa democrática diante da possibilidade fascista, saindo vitorioso, desse falso enfrentamento, o capital.
ANTIFASCISMO HOJE
Entendendo a função do fascismo na atual estrutura das relações sociais e econômicas, podemos entender a função do antifascismo. Hoje, o antifascismo adota (querendo ou não) diversas facetas e funções:
O antifascismo como atitude estética. O antifascismo é pouco menos que uma moda. A falta de análise, debate e crítica é patente. Não globaliza o problema, mas trata de separar seus efeitos mais palpáveis (violência de rua fascista), reproduzindo-os, em muitos casos (violência de rua antifascista). Ao redor do antifascismo é criada e recriada uma estética ganguista e de escasso conteúdo, regida por uma violência boçal e estéril. Proliferam grupos, coletivos, plataformas etc., que tratam de responder a um fenômeno sem analisar suas causas ou, ao menos, sem atacá-las. Atos de repúdio ou de puro caráter anedótico, como as manifestações de 20 de novembro, são moeda comum. Mais além, deve-se situar a patética imagem do mata-nazis como figura folclórica do movimento que, em muitos casos, copia atitudes e esquemas mentais de seus supostos adversários, numa clara tendência militarista que pode chegar a prevalecer e envolver todo o movimento.
O antifascismo como luta de distração. Fixar nossos esforços na luta antifascista a nível parcial nos distancia inevitavelmente da centralidade da luta de classes: criar consciência e auto-organização de classe. O antifascismo distrai a atenção de um problema concreto, fruto de uma situação global. Ainda mais quando cai em dinâmicas de repressão-ação (difíceis de evitar), que levam o movimento a centrar seu trabalho na resposta a agressões de grupos fascistas ou do aparato repressivo do Estado, quando @s antifascistas sofrem represálias.
O antifascismo como colaboração de classe. O lema "todos contra o fascismo" pode exemplificar uma tendência para a colaboração de classes. A aliança, em plataformas etc., com forças contra-revolucionárias da esquerda capitalista é patente em muitos casos. Um lema tão geral pode ser tomado de muitos ângulos, desde a esquerda colaboracionista até a direita liberal, passando pelos grupúsculos oportunistas (os restos do leninismo, que combatem o fascismo aqui e apoiam alianças entre fascistas e "comunistas" na antiga URSS). A história volta a se repetir, com um cenário totalmente distinto, ao se desenvolverem políticas frentistas que implicam um reforço do modelo capitalista sob formas democráticas parlamentares. Volta-se a colaborar com os inimigos de classe, socavando os próprios interesses em nome de uma defesa dos inimigos aparentemente mais diretos e atrozes: os fascistas. O resultado é que, no lugar de fazer cotidianamente a revolução, nos aliamos aos inimigos dela.
O antifascismo como forma de reforçar o Estado. Os grupos antifascistas reclamam medidas estatais e legais que reprimam o fascismo 6: leis contra grupos nazis, medidas policiais, altas penas de prisão etc. A aplicação de tais medidas dificilmente nos favoreceria, muito pelo contrário. Com isso, reforça-se o papel do Estado como repressor e seu poder é fortalecido. Não deixa de surpreender e alarmar que, de nossas fileiras, sejam dadas armas para nosso mais evidente inimigo: o Estado. Assim como quem considera que as leis do Estado possam ser nossa salvaguarda contra aqueles que são nem mais nem menos que seus cúmplices: os fascistas.
PALAVRAS FINAIS
Não se pretende fazer, a partir deste artigo, uma crítica sanguinária e sem atenuantes a todos os grupos antifascistas. Não é possível pensar que esse movimento seja homogêneo e igualmente criticável, mas sim que é necessário começar a criticar, analisar e, definitivamente, pensar a realidade. Globalizar as situações para intervir na realidade e transformá-la é tarefa de tod@ revolucionari@. Do contrário podemos cair (mesmo que seja sem o desejar) no papel de cúmplices e companheir@s de viagem do próprio sistema que nos oprime. Tampouco deseja este artigo dizer que não devemos enfrentar o fascismo, mas sim esclarecer que essa luta forma parte (e não a fundamental) do enfrentamento cotidiano contra o Capital-Estado e não uma forma de justificar a existência destes."